domingo, 1 de dezembro de 2013

Juristas e organizações internacionais engrossam denúncias de fraude em Honduras

Juiz espanhol Baltasar Garzón acusa 'claros indícios' de irregularidades. Via Campesina lista problemas que colocam em xeque eleição de conservador para presidência
por Redação RBA publicado 28/11/2013 17:27, última modificação 28/11/2013 17:41 
 
Gustavo Amador/EFE
juan hernandez comemoracao domingo EFE Gustavo Amador.jpg
Hernández comemora 'vitória' após TSE divulgar resultados de 30% das urnas


São Paulo – Após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de Honduras declarar oficialmente Juan Orlando Hernández, do Partido Nacional, como vencedor das eleições presidenciais do último domingo (24), organizações sociais internacionais que observaram o pleito hondurenho divulgaram notas denunciando irregularidades no processo. Em Tegucigalpa para acompanhar as eleições, o jurista espanhol Baltasar Garzón, reconhecido pela condenação do ex-ditador chileno Augusto Pinochet por crimes contra a humanidade, também lançou dúvidas sobre a lisura da apuração. A oposição endossa as suspeitas de fraude. O governo ignora.

“Ainda não podemos determinar a dimensão das irregularidades, mas houve compra de votos, compra de credenciais, houve clara influência e tentativas de manipulação na contagem eletrônica e na transmissão das atas de votação”, declarou Garzón ontem (27) ao jornal argentino Página 12, durante uma passagem pelo Paraguai. O magistrado foi convidado para observar as eleições hondurenhas pela Federação Internacional de Direitos Humanos. A missão da FIDH foi integrada por outras dez pessoas, provenientes dos Estados Unidos, Canadá, Colômbia, Suécia e Bélgica. “Todos, por unanimidade, constatamos que houve claros indícios de manipulação e de fraude eleitoral.”
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A delegação de observação da Via Campesina publicou hoje (28) um pronunciamento em que também põe em xeque a legitimidade do pleito hondurenho. “Mantivemos presença ativa em cerca de 400 mesas receptoras de voto, nas quais pudemos detectar uma série de irregularidades: problemas na abertura e fechamento das mesas de votação, tráfico de credenciais para a composição das mesas de votação, tentativas de suborno, compra de votos, existência de papeletas pré-marcadas e violação do direito ao voto secreto.” A organização, que representa camponeses de todo o mundo, levou 60 representantes para monitorar o processo, com autorização do TSE.

A Via Campesina afirma ainda que pôde comprovar “escassa capacitação sobre o procedimento aos membros das mesas de votação e número insuficiente de pessoal designado pelo TSE”. Outras irregularidades apontadas pela organização se assemelham às observações realizadas pela missão sindical liderada pela Confederação Sindical de Trabalhadores das Américas (CSA), como “retenção das atas e do envio de dados” e “emissão de dados antecipados pelo TSE com base nas urnas ainda não contabilizadas”. A Via Campesina também atesta a existência de “inconsistências no padrão eleitoral”, ou seja, “aparição de pessoas que não figuravam no recinto com a intenção de votar”.

Por fim, a organização afirma que alguns centros eleitorais registraram “pressões e violência mediante ameaças e acosso” a votantes e observadores. Tais ações teriam sido ainda mais intensas nas zonas rurais. “Nossa conclusão é que o processo eleitoral hondurenho não foi suficientemente transparente. Pelo contrário, consideramos que houve uma 'fraude institucionalizada' que situa o país num cenário sumamente preocupante”, denuncia a Via Campesina, que se diz surpresa com as manifestações positivas da Organização dos Estados Americanos e da União Europeia sobre o pleito no país. “Apesar das múltiplas irregularidades assinaladas, avalizaram rapidamente tanto os resultados preliminares como todo o processo, que dizem ter transcorrido com 'normalidade'.”

A Guilda Nacional de Advogados (NLG) dos Estados Unidos também soltou uma declaração “questionando seriamente” a validade dos resultados preliminares divulgados pelo TSE hondurenho. O grupo sediado em Nova York enviou 17 observadores eleitorais ao país centro-americano. Em nota, seus representantes se disseram “alarmados” com o poder do Partido Nacional, provável vencedor do pleito, sobre todo o processo eleitoral. “Eles controlam o Judiciário, as forças armadas e o Congresso desde o golpe militar de 2009”, reconhece a NLG, que também critica a ingerência de Washington sobre o país. Parte das denúncias apontadas pela Via Campesina é endossada pela organização, sobretudo a venda de credenciais que permitiam presença nas mesas de votação. “Isso ameaça a integridade do processo.”

Amanhã (29) os representantes do Liberdade e Refundação (Libre), partido de Xiomara Castro, segunda colocada nas eleições presidenciais, deve fazer um pronunciamento definitivo sobre o pleito hondurenho. O Libre tem animado as denúncias de fraude, apesar de algumas lideranças terem voltado atrás e dito que jamais utilizaram essa palavra para se referir aos problemas observados no processo. O coordenador do partido, Manuel Zelaya, marido de Xiomara e ex-presidente derrubado em 2009, prometeu reconhecer os resultados do TSE caso a autoridade eleitoral consiga provar a lisura das apurações. As urnas que ainda não chegaram à capital devem estar à disposição da justiça amanhã (29). De qualquer maneira, Tegucigalpa deverá assistir a protestos populares no sábado (30) contra o aparelhamento das eleições pelas oligarquias do país.



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Os analfabetos políticos das redações

Brecht dizia que nada havia de pior que eles, porque acabavam deixando a política nas mãos de pessoas como, bem, como Roberto Marinho.



Paulo Nogueira Arquivo

Você certamente conhece os analfabetos políticos, os APs. Brecht dizia que nada havia de pior que eles, porque acabavam deixando a política nas mãos de pessoas como, bem, como Roberto Marinho, para trazer o assunto para um cenário brasileiro.

Os APs estão em toda parte, até mesmo nas redações de grandes jornais e revistas. Os leitores podem imaginar que as redações sejam compostas de pessoas altamente politizadas, a negação dos APs.

Mas não é assim.

Considere.

Recentemente, houve uma troca de tuítes entre Barbara Gancia e mim. A encrenca começou quando ela escreveu que estranhava Dirceu estar preso e Palocci não.

Respondi que estranho mesmo era a Folha não dar nada sobre o documentado escândalo da sonegação da Globo.

Primeiro, ela revelou ignorância sobre o caso. Atribuiu-o a uma “teoria da conspiração”, a despeito de todos os fatos amplamente comprovados.

Depois, disse, em tons heroicos, que em 30 anos de colunismo na Folha jamais foi censurada.

Respondi que isso se devia apenas a que ela jamais escrevera nada que incomodasse a família Frias.

Foi então que o analfabetismo político de Barbara Gancia gritou: ela citou, como evidência de que é independente, um texto em que dizia que nos protestos de fora as pessoas são chamadas de manifestantes e no Brasil de vândalos.

Bem, onde uma afirmação dessas poderia incomodar os Frias?

Somente o analfabetismo político poderia enxergar numa banalidade daquelas prova de independência editorial.

Coragem seria, para voltar ao caso, reclamar esclarecimentos sobre a sonegação da Globo.

Muitos leitores vêem coragem onde não há nada que mereça uma única palma.

Isso se manifesta com frequência entre os leitores de outro analfabeto político do jornalismo, Reinaldo Azevedo.

“Parabéns pela coragem, Tio Rei”, gostam de dizer os obtusos leitores dele.

Coragem?

Ora, ele está sempre defendendo os interesses das empresas para as quais trabalha. É um bajulador dos poderosos.

Coragem?

Se ele tivesse escrito qualquer coisa que contrariasse os interesses dos que lhe pagam, aí sim, ele seria corajoso.

É o famoso chapa branca vestido de rebelde, aspas e pausa para rir. Como todo chapa branca, ganha duas vezes: primeiro, indiretamente, do Estado, pelas mamatas desfrutadas por quem o emprega. Depois, pelas próprias empresas.

Faça um teste. Azevedo poderia - liberal que é, aspas novamente - questionar a reserva de mercado para as companhias de mídia.

Mas tente encontrar uma única linha sobre o assunto na vasta, tediosa, repetitiva obra de Azevedo.

Provavelmente ele ignore a reserva de mercado da mídia. E também não saiba das mamatas estatais concedidas às companhias jornalísticas.

Saberá Reinaldo Azevedo que o papel de cada página da Veja é imune de impostos? Saberá que o dinheiro público – empréstimos do BNDES e do Banco do Brasil a juros maternais, anúncios oficiais pagos com tabela cheia, lotes de assinaturas de governantes amigos – paga boa parte de seu salário?

Talvez não. Por isso ele é um AP, um analfabeto político.

O que ele sabe, quase certamente, é que nem o dinheiro dos anúncios de Alckmin bastaram para salvar a revista política na qual ele teve sua única experiência de comando.

Nela, ele aprendeu com seu mecenas na ocasião, Luís Carlos Mendonça de Barros, a arte da grosseria, da insolência e da mistificação.

A convivência entre os dois terminou na ruína de uma revista que, repito, não se sustentou sequer com dinheiro público.

Mendonça não pode ser acusado de AP. É esperto demais para isso. Mas ele não ensinou seu pupilo nesse quesito, e hoje o aprendiz nos atormenta com suas demonstrações cotidianas de analfabetismo político.



Carta Maior

Datafolha: Dilma bateria Joaquim Barbosa por 44% a 15%

publicado em 30 de novembro de 2013 às 17:32



30/11/2013 – 17h00

Dilma cresce e oposição encolhe, aponta Datafolha


De junho para cá, os pré-candidatos a presidente fizeram o possível para recuperar a popularidade perdida por causa do abalo provocado pelas manifestações de rua em todo país. Por enquanto, só a presidente Dilma Rousseff segue em trajetória ascendente. A oposição oscila entre bons e maus momentos, e agora encolheu um pouco mais, segundo o Datafolha.

Dilma ou seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, ambos do PT, lideram a corrida presidencial em todos os cenários mais prováveis para 2014 — o Datafolha testou nove combinações de nomes.

A presidente pontua de 41% a 47%, dependendo de quem são seus adversários. Lula oscila de 52% a 56%.

O Datafolha entrevistou 4.557 pessoas em 194 municípios na quinta e na sexta-feira. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Apesar do conforto momentâneo que oferecem a Dilma, os eleitores emitem um sinal contraditório para a petista. Dois terços dizem preferir que “a maior parte das ações do próximo presidente seja diferente” das adotadas por ela.

Entre todas as simulações com os nomes dos pré-candidatos, o cenário que parece mais provável hoje é também aquele em que Dilma está mais bem colocada. Ela tem 47% contra 19% de Aécio Neves (PSDB) e 11% de Eduardo Campos (PSB). Em outubro, ela pontuava 42%. O tucano tinha 21% e o socialista, 15%.

Nesse cenário, o percentual de eleitores que vota em branco, nulo ou que se diz indeciso ficou inalterado em 23%, de outubro até agora. Ou seja, a petista cresceu extraindo votos dos dois adversários diretos nesse período. Ganharia no primeiro turno.

A presidente só não venceria hoje a eleição na primeira votação nos cenários em que Marina Silva aparece como candidata. Ocorre que a ex-senadora se filiou ao PSB e não é certo que vá concorrer como cabeça de chapa nas eleições do ano que vem.

Numa das simulações, a petista fica com 41% contra 43% dos outros dois adversários somados (Marina registra 24% e José Serra 19%). Mas Dilma está se recuperando. Em outubro, tinha 37%, contra 28% de Marina e 20% de Serra.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, testado num dos cenários, aparece com 15%, numericamente em segundo lugar. Dilma, com 44%, venceria no primeiro turno. Aécio teria 14%. Campos, 9%.

Diferentemente de Dilma, o ex-presidente Lula venceria a disputa no primeiro turno nos quatro cenários em que seu nome aparece — inclusive contra Marina e Serra.

PS do Viomundo: A pressão sobre Barbosa para que ele saia candidato vai se multiplicar. É a melhor chance de garantir um segundo turno.




Viomundo

Por que a oposição está tão mal no Datafolha e Dilma tão bem?

Postado em 30 nov 2013

A oposição deveria ouvir este homem
A oposição deveria ouvir este homem


Não há retrato mais pungente da perda de influência da grande mídia do que o novo Datafolha.
Com todo o barulho feito em torno das prisões do Mensalão, com todas as acusações contra o possível novo emprego de Dirceu, com toda a promoção de antipetistas como Joaquim Barbosa – com tudo isso, Lula e Dilma aparecem distantes, absolutamente distantes, dos demais concorrentes.

Os donos das empresas de jornalismo deveriam se perguntar onde estão errando. Ao mesmo tempo, poderiam cobrar mais eficiência de seu exército de colunistas pagos para conseguir o efeito oposto do que as pesquisas apontam.
Tenho uma pista.

Quando você exagera na dose dos ataques gera um sentimento de revolta nas pessoas. Ao contrário do que você pretende, o atacado passa a ser visto como um injustiçado, uma vítima.
É o que pode estar acontecendo agora. A não ser os fundamentalistas que abominam qualquer coisa de esquerda, as demais pessoas acabaram se sensibilizando com a cruz carregada por Genoino, por exemplo.

E isso se traduz em mais apoio ao PT, ou repúdio aos agressores. Poucos dias atrás, o PT anunciou que as adesões tinham aumentado significativamente.
É notável a miopia da oposição. Ou a burrice, simplesmente.
Os protestos de julho – os reais, contra a desigualdade – mostraram que a sociedade quer mais ação social.

Os candidatos da oposição não entenderam a mensagem, exceto, em certa medida, Marina. Mas mesmo ela está enroscada com Eduardo Campos, numa aliança de ocasião em que não parecem grandes as chances de ela sair candidata.

Os oposicionistas deveriam prestar atenção no Papa Francisco: ele captou o zeitgeist, o espírito do tempo, e está falando o que o mundo quer ouvir. Por exemplo, que não dá mais para aceitar tão poucos ricos e tantos pobres.

Mas não. Os líderes da oposição preferem ouvir os Frias, os Marinhos, os Civitas.
Ganham com isso espaço numa mídia que cada vez menos influencia os brasileiros.
Poderão morrer, oposição e mídia, abraçados, num mútuo afogamento que poucas pessoas haverão de chorar.


Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira, baseado em Londres, é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.




Diário do Centro do Mundo

A opinião pública como gado

O documentado condomínio entre o PSDB, cartéis e a prática sistêmica de sobrepreço nas licitações do metrô paulista era do conhecimento da mídia desde 2009.

 
por: Saul Leblon

Arquivo

A régua seletiva da emissão conservadora vive mais uma quadra de exibição pedagógica.

Vísceras, troncos e membros do grupo proprietário do Hotel Saint Peter, em Brasília, no qual trabalhará o ex-ministro José Dirceu, por apreciáveis R$ 20 mil, diga-se  – se fossem R$ 5 mil ou R$ 10 mil as suspeitas seriam menores?--  estão sendo trazidos a público em cortes sugestivos.

Chegam desossados e moídos.

Salgados e pré-cozidos, basta engolir, sendo facilmente digeríveis em sua linearidade.

Sem guarnição, recomenda o chef.

Assim costuma ser, em geral, com as informações que formam o cardápio de  fatos ou acusações relacionados ao PT.

Uma farofa seca de areia com arame farpado.

E assim será com o exercício do regime semiaberto facultado ao ex-ministro.

A lente da suspeição equivale desde já a um segundo julgamento.

Com as mesmas características do primeiro.

Recorde-se o jornalismo associado ao crime organizado que  não hesitou em invadir o quarto de hotel do ex-ministro, em Brasília, para instalar aparelhos de escuta, espionar gente e conversas no afã de adicionar chibatadas ao pelourinho da AP 470.

O cenário esquadrejado em menos de uma semana  –o emprego foi contratado na última 6ª feira— diz que não será diferente agora.

O dono do hotel é filiado a partido da base do governo (PTN), revela a Folha. Tem negócios na área da comunicação. Uma de suas emissoras, a Top TV, com sede em Francisco Morato (SP), conquistou recentemente o direito de transferir a antena para a Avenida  Paulista.

Suspeita.

A Anatel informa que não, a licença foi antecedida de audiência pública. Sim, mas a Folha desta 5ª feira argui tecnicalidades, cogita riscos de interferência em outros canais etc

Não só.

Dono também de rádios, o empregador de Dirceu operou irregularmente uma antena instalada em terraço do Saint Peter, diz o jornal  ainda sem mencionar o andar.

Deve ser o 13º.

A mesma Folha investiga ainda encontros do empresário --membro de partido da base aliada--  com o ministro Paulo Bernardo. Da Comunicação. A esposa do ministro é pré-candidata ao governo do Paraná..

Vai por aí a coisa.

Alguém com o domínio de suas faculdades mentais imaginaria que o ex-ministro José Dirceu, um talismã eleitoral lixiviado há mais de cinco anos no cinzel conservador, obteria um emprego em qualquer latitude do planeta sem a ajuda de aliados ou amigos?

O ponto a reter é outro.

Avulta dessa  blitzkrieg  uma desconcertante contrapartida de omissão: quando se trata de cercar pratos compostos de personagens e enredos até mais explosivos, extração diversa, impera a inapetência investigativa.

O braço financeiro da confiança de José Serra, Mauro Ricardo, seria um desses casos de inconcebível omissão se as suas credenciais circulassem na órbita do PT?

A isso se denomina jornalismo de rabo preso com o leitor?

Tido como personalidade arestosa, algo soberba, Mauro Ricardo reúne predicados e rastros que o credenciariam a ser um ‘prato cheio’ do jornalismo investigativo.

O economista acompanha Serra desde quando o tucano foi ministro do Planejamento (1995/96); seguiu-o na pasta da Saúde (1998/2002), sendo seu homem na Funasa, de cujos funcionários demitidos Serra ganharia então o sonoro apelido de ‘Presidengue’, na desastrosa derrota presidencial de 2002.

Nem por isso Mauro Ricardo perdeu a confiança do chefe, sendo requisitado por Serra quando este assumiu a prefeitura de São Paulo, em 2004/2006, ademais de acompanha-lo, a seguir, no governo do Estado.

Quando o tucano foi derrotado  pela 2ª vez  nas eleições presidenciais de 2010, Mauro Ricardo voltou ao controle do caixa da prefeitura, sob a gestão Kassab.

Esse, o trajeto da caneta que mandou arquivar as investigações contra aquilo que se revelaria depois a maior lambança da história da administração pública brasileira: o desvio de R$ 500 milhões do ISS de São Paulo, drenados ao longo do ciclo Serra/Kassab por uma máfia de fiscais sob a jurisdição de Mauro Ricardo.

O que mais se sabe sobre esse centurião?

Muito pouco.

Seus vínculos, eventuais negócios ou sócios, círculos de relacionamento e histórias da parceria carnal com o candidato de estimação da mídia conservadora nunca mobilizaram esforço investigativo equivalente ao requisitado na descoberta de uma antena irregular  num terraço do Hotel Saint Peter, em Brasília.

Evidencia-se a  régua seletiva.

Que faculta ao tucano Aécio –e assemelhados-  exercitar xiliques de indignação ante as evidências de uma fusão estrutural entre o tucanato de SP,  cartéis multinacionais e a prática sistêmica de sobrepreço  nas compras do metrô paulista - desde o governo Covas.

Dados minuciosos do longevo,  profícuo matrimônio,  são conhecidos e circulam nos bastidores da mídia, de forma documentada, desde 2009.

Quem  confessa é o jornal Folha de SP desta 5ª feira.

Repita-se, o repórter Mario Cesar Carvalho admite, na página 11, da edição de 28/11/2003 do jornal, que se sabia desde 2009  da denúncia liberada agora pelo ‘Estadão’ –cujo limbo financeiro pode explicar a tentativa de expandir o universo leitor com algum farelo de isenção.

Por que em 2009 esse paiol não mereceu um empenho investigativo ao menos equivalente ao que se destina aos futuros empregadores de José Dirceu?

O calendário político da Folha responde.

Em 2010 havia eleições presidenciais; o jornal preferiu investir na ficha falsa da Dilma a seguir os trilhos do caixa 2 tucano em SP.

No seu conjunto, a mídia tocava o concerto do ‘mensalão petista’. Dissonâncias não eram, nem são bem-vindas.

Transita-se, portanto, em algo além do simples desequilíbrio editorial.

Temas ou versões conflitantes com a demonização petista mereceram, ao longo de todos esses anos, o destino que lhes reserva a prática dos  elegantes manuais de redação: ouvir o outro lado, sem nunca permitir que erga a cabeça acima da  linha da irrelevância.

Assim foi, assim é.

Só agora – picados e salgados os alvos em praça pública--  o pressuroso STF lembrou-se de acionar o Banco do Brasil para cobrar o suposto assalto aos ‘cofres públicos’ da AP 470.

Pedra angular das toneladas de saliva com as quais se untou os autos do maior julgamento-palanque da história brasileira, só agora,  encerrado o banquete, cogita-se do prato principal de R$ 70 milhões esquecido na cozinha?

O esquecimento serviu a uma lógica.

Até segunda ordem, perícia rigorosa providenciada pelo BB ofereceu uma radiografia minuciosa de recibos e provas materiais dando conta do uso efetivo do dinheiro nas finalidades de patrocínio e publicidade contratadas.

O documento capaz de trincar a abóboda da grande narrativa conservadora, nunca mereceu espaço à altura de seus decibéis no libreto dominante.

Ao mesmo tempo, o que a Folha admite agora, como se isso mitigasse o escândalo do metrô (‘Papéis que acusam o PSDB circulam há mais de quatro anos’) corrobora a percepção de que estamos diante de uma linha de coerência superlativa.

Ela traz a marca de ferro do que de pior pode ostentar quem se evoca a prerrogativa da informação isenta.

‘Cumplicidade’ diz o baixo relevo inscrito nas páginas e na pele daqueles que ironicamente, destinaram à  opinião pública, durante todos estes anos, o livre discernimento que se dispensa ao gado na seringa do abate.



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