terça-feira, 27 de março de 2012

A visita de FHC a Lula


Por implacavel

De O Globo.com

Fernando Henrique visita Lula no Sírio-Libanês

Encontro de ex-presidentes durou cerca de 50 minutos

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso visitou nesta terça-feira o também ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Hospital Sírio-Libanês. O encontro começou às 11h e durou cerca de 50 minutos.

Lula estava no hospital para fazer uma sessão de fonoaudiologia e, após o encontro, retornou a sua residência em São Bernardo do Campo. Fernando Henrique entrou no local por uma porta lateral evitando os jornalistas.

O ex-presidente deve fazer os exames de avaliação do câncer na laringe na quarta-feira. Os exames estavam planejados para a semana passada e foram adiados em razão de uma inflamação que Lula tem na garganta, um dos efeitos colaterais do tratamento de radioterapia contra a doença. Devem ser feitos exames de imagem, como tomografias, e uma laringoscopia. Em exames anteriores de acompanhamento do tratamento, os médicos informaram que não notaram lesões na laringe de Lula, apontada para um possível desaparecimento do tumor.

Blog do Luis Nassif

Dilma chega a Índia para reunião dos Brics

A presidenta Dilma Rousseff durante evento no Palácio do Planalto em 20 de março. Foto: ©AFP / Pedro Ladeira

NOVA DELHI (AFP) – A presidente Dilma Rousseff desembarcou nesta terça-feira 27 em Nova Delhi para participar da quarta reunião de cúpula dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e para uma visita de Estado à maior democracia do mundo.

Acompanhada por seis ministros (Relações Exteriores, Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Educação, Ciência e Tecnologia, Turismo e Comunicação), o secretário executivo da Fazenda e dois governadores, a presidente receberá o título de doutor honoris causa na quarta-feira 28 na Universidade de Nova Délhi.

Na quinta-feira 29, ela participará Quarta Cúpula do Brics, que acontecerá em um hotel da capital indiana, e na sexta-feira 30 fará uma visita de Estado que terá como principal momento um jantar de trabalho.

Bolsa de Valores e Banco próprios

Entre os principais temas da agenda dos líderes políticos dos cinco potências emergentes está o aumento da interação econômica entre os países do grupo e a criação de um banco de desenvolvimento próprio.

Em entrevista à CartaCapital, o professor Oliver Stuenkel, da FGV-SP, reforça que os estreitamentos econômicos entre os países dos blocos é a prioridade do encontro. “A interação econômica entre os países do grupo é muito pequena. A exceção da regra é a China, mas é preciso aproximar as sociedades civis, as empresas e as universidades desses países e um banco comum agiria nesse sentido”, afirma Stuenkel.

Segundo ele, proposta de um banco próprio não é mais incentivada apenas pela baixa representatividade em orgãos financeiros mundiais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM). Agora, a proposta age como um alinhamento de regras de investimento, ações globais em conjunto e aumento do comércio entre as potências emergentes.

“Espera-se que o banco dos Brics seja um primeiro passo que depois evolua para uma bolsa de valores que concentre as empresas destes países para criar um mercado só”, afirma. “É praticamente certo que depois da Cúpula de Nova Delhi, os créditos de empreendimentos indianos e brasileiros aconteçam em real ou em rupia indiana, não mais em dólar”, adianta Stuenkel.

Segundo uma fonte diplomática brasileira, é bastante provável que neste encontro seja criado um grupo de trabalho para elaborar a criação do banco de desenvolvimento para financiar projetos sustentáveis e de infraestrutura.

Mais uma vez a situação na Zona do Euro será abordada no evento das cinco potências emergentes, que tiveram o crescimento afetado pela crise da dívida na Europa, assim como a situação no Oriente Médio, em particular a Síria, e a eleição do presidente do Banco Mundial, entre outros temas.

Na agenda da reunião bilateral com a Índia, Dilma deve abordar a preferência do país asiático pelo caça francês Rafale, cuja aquisição o Brasil também cogita, e a ampliação do volume comercial entre os dois países.

*Com informações da Agência France Press

Carta Capital

segunda-feira, 26 de março de 2012

Como o sistema ferroviário da Argentina foi saqueado

A rede ferroviária estatal argentina tinha 40.000 km e nela trabalhavam 190.000 empregados. Era a mais extensa da América Latina e, de certo modo, a coluna vertebral de um país. A história do desmonte desse sistema começa nos anos 60, quando montadoras estadunidenses e o Banco Mundial impulsionaram o Plano Larkin para desarmar a rede ferroviária do país, chegando até a reforma do Estado dos anos 90, quando o neoliberal Carlos Menem desmontou o Estado, privatizando todo seu patrimônio. O artigo é de Francisco Luque.
Buenos Aires - Ao se completar um mês do trágico acidente ferroviário da linha Sarmiento, na Estação de Once, em Buenos Aires, que deixou 51 mortos e 703 feridos - três deles continuam hospitalizados -, ainda escuta-se o barulho. O barulho das famílias das vítimas que pedem maior celeridade à justiça para esclarecer as causas diretas do acidente e estabelecer quem foram os responsáveis. Também o ruído de uma sociedade ainda chocada que quinta-feira pela manhã, às 8h30min, a mesma hora da colisão, fez soar as buzinas de seus carros em lembrança das vítimas. Mas há outro ruído, talvez mais permanente e profundo, e é o ruído do saque do qual foi objeto o sistema ferroviário argentino.

A Justiça argentina investiga as responsabilidades imediatas da tragédia, mas para os especialistas, as causas que produziram este acidente estão nos processos sociais e econômicos que a Argentina viveu nos últimos 60 anos. A busca chega até aos anos sessenta, quando as montadoras estadunidenses instaladas na Argentina, impulsionaram o Plano Larkin – implementado por sua vez pelo Banco Mundial, para desarmar a rede ferroviária argentina –, até a reforma do Estado dos anos noventa, quando o neoliberal Menem desmontou o Estado, privatizando - saqueando?- todo seu patrimônio.

Historicamente, a rede ferroviária estatal argentina tinha 40.000 km e nela trabalhavam 190.000 empregados. Era a mais extensa da América Latina e era, de certo modo, a coluna vertebral de um país. A Argentina havia se estruturado em povoados que nasceram ao longo desses trilhos. Era um país solidário e inclusivo, com acesso aos centros nevrálgicos de produção e participação nas definições sobre um conceito de país.

O saque começou na ditadura de 1976, quando não só se usurpavam vidas, mas também bens. Era a destruição planejada do Estado e do patrimônio nacional acumulado durante o século XX com o objetivo de consolidar o capital financeiro e os grupos econômicos.

Quando a ditadura se instalou, a condução da área de Transporte ficou radicada no Ministério de Economia através da Secretaria de Transporte e Obras Públicas. Ali se elaborou um plano de ação para retomar as medidas de racionalização recomendadas 15 anos antes pelo Plano Larkin para pôr em prática a privatização periférica (vazamento lento e progressivo, somado à terceirização de investimentos, atividades e serviços de empresas privadas) da estatal Ferrocarriles Argentinos. O resultado? Fechamento de ramais antieconômicos, supressão de trens de passageiros de baixa utilização, fechamento de oficinas redundantes, fechamento de estações, supressão da tração a vapor, etc.

Entre 1976 e 1980 foram abandonadas cerca de 600 estações, reduziram-se trens de passageiros interurbanos e locais do interior em 30% e fecharam-se 5500 km de linhas secundárias. Só nas oficinas, a quantidade de pessoal reduziu-se de 155 mil empregados em 1976 para 97 mil em 1980, segundo o livro “Nueva Historia del Ferrocarril en Argentina”, de Mario López e Jorge Waddol. A desconexão do país e a intensa eliminação de oficinas contribuíram para a decadência e desaparição de uns 700 povoados, e a aceleração da pobreza e da desigualdade.

Com Menem, nos anos 90, e a influência do neoliberalismo em escala planetária, decidiu-se arrasar com o sistema de trens e aplicou-se a célebre frase do presidente: “Cirurgia maior sem anestesia”. 600 povoados desapareceram. Oitenta mil trabalhadores ferroviários foram despedidos. A imprensa fiel ao período de “pizza com champanhe” informava que os trens perdiam um milhão de dólares diários sobre uma rede de 35.000km. Havia que fechá-la ou privatizar o pouco que restava. Foi a amostra feroz da cumplicidade do poder político com os grupos econômicos.

Na atualidade subsistem uns 7.000km de vias maltratados e trens que não podem avançar a mais de 40 km por hora. Cerca de 20.000 pessoas trabalham no ramo. A maioria dos vagões tem entre 40 e 50 anos; os trilhos são instáveis, as janelas quebram e não são consertadas, as portas não fecham.
Néstor Kirchner herdou a pior crise econômica da história da Argentina. E muito não pôde fazer com respeito aos trens, entendido como um serviço público indispensável. Manteve-se um funcionamento deficiente compensado com uma tarifa congelada – quase simbólica -, outorgando subsídios à concessionárias, administradores do funcionamento - sem os controles adequados. Recuperaram-se alguns ramais ferroviários, mas sem melhoras em infraestrutura e adquiriu-se material descartado em seus países de origem pelos anos de uso.

“Os subsídios às empresas privadas sem controles efetivos do Estado são mais uma página sombria na continuação de um “Estado Hood Robin”, como o batizou outrora o jornalista Horacio Verbitsky, onde se paga para que continuem crescendo empresas privadas à custa de cada argentino. Em outras palavras, “se tira do pobre para dar ao rico”, sustenta a analista Maria Seoane.

As empresas concessionárias foram a grande dor de cabeça do sistema ferroviário nos últimos tempos. Como bem aponta o jornalista Hernán Brienza: “a política de subsídios pensada desde 2003 para que milhões de argentinos humildes possam viajar a preços irrisórios acabou sendo letal em mãos do grupo concessionário que mais controle e poder tem sobre os trens”. Grupos empresariais beneficiados como o da família Cirigliano, concessionária do Trem Sarmiento TBA, entre outras, teve um crescimento econômico exponencial durante os últimos anos, e, como afirma Edgardo Reynoso, secretário da União Ferroviária, os trens da linha dos Cirigliano continuam circulando "à beira do desastre". Esta concessionária está sob intervenção do Estado desde o acidente.

Para a classe trabalhadora, a solução é clara: que os concessionários vão embora e que se reestatizem todos os trens em uma empresa só, sob o controle dos trabalhadores e dos usuários. Essa é a única possibilidade de solução para o atual estado calamitoso da ferrovia, sustentam.

Passado um mês da tragédia de Once, entre aplausos, buzinas e pedidos de "justiça", centenas de pessoas protestaram na estação de trens pedindo o esclarecimento do acidente.

Carta Maior

O Procurador Geral, o Senador e o bicheiro

Autor:

A revelação das ligações do senador Demóstenes Torres com o bicheiro Carlinhos Cachoeira lança uma sombra de suspeita sobre o procurador geral Roberto Gurgel.

Demóstenes foi elemento central na recondução de Gurgel ao cargo de Procurador Geral, desempenhando papel bastante conhecido em assembléias de acionistas.

Nessas assembléias há um estratagema corporativo que consiste em canalizar as insatisfações dos minoritários para um deles. O sujeito esbraveja, fala alto e torna-se o líder da resistência contra os controladores. Depois, à medida em que a AGE avança, ele cede rapidamente aos argumentos dos controladores, esvaziando a reação dos demais.

Demóstenes desempenhou esse papel no processo de recondução de Gurgel ao cargo de Procurador Geral.

Primeiro esbravejou, exigindo de Gurgel a abertura de processo contra Antonio Palocci, ameaçando não votar a favor da sua recondução ao cargo. Depois, recuou, disse que, infelizmente, as alegações de Gurgel - de que não havia nenhum elemento que comprovasse origem ilícita dos recursos de Palocci - eram corretas e só lhe restava acatar a lei.

Independentemente do mérito dos argumentos de Gurgel, os movimentos iniciais de Demóstenes lhe conferiram o papel de líder dos minoritários; e seu convencimento final matou toda a reação contra a indicação do Procurador Geral.

Poderia ser apenas um caso de um Senador procurador reconhecendo o mérito da alegação de outro, não fosse a circunstância de que Gurgel há dois anos estava sentado em cima de um inquérito que denunciava as ligações espúrias de Demóstenes com Cachoeira.

Demóstenes só chegou a essa posição de destaque no Senado, a ponto de ser figura chave na aprovação do Procurador Geral, graças à cobertura que recebia da revista Veja - que, por sua vez, se associou ao bicheiro Carlinhos Cachoeira em diversas denúncias. E foi graças a essa posição de destaque que Demóstenes tornou-se suspeito da mais grave armação contra as instituições desde o Plano Cohen: a farsa do grampo sem áudio.

É importante entender que essa promiscuidade mídia-político-criminoso - que não é generalizada na velha mídia, mas específica da revista Veja - não é apenas um caso de exorbitância jornalística: é algo que ameaça a própria normalidade institucional do país, abrindo espaço inédito para que o crime organizado ascenda aos mais altos escalões da República, constrangendo autoridades diversas. No caso Daniel Dantas, a revista fuzilou reputação de Ministro do STJ que havia confirmado uma liminar contra o banqueiro.

Até agora, apenas alguns blogs, isoladamente, têm atuado como contrapeso a esse poder avassalador de um jornalismo sem limites. Mas somos vítimas de uma judicialização da discussão - com torrentes de ações desabando sobre nós. Em nome de uma visão equivocada sobre os limites da liberdade de imprensa, o Judiciário é condescendente. Quando age, sempre é com enorme atraso, devido aos problemas processuais conhecidos. Os demais veículos se calam antes os abusos da Veja.

Gurgel terá que provar, daqui para diante, sua independência - e não propriamente em relação ao Executivo. E os poderes públicos - especialmente o Judiciário - terão que acordar para a realidade de que, hoje em dia, são reféns da escandalização praticada pelo mau jornalismo. E que a melhor maneira de defender a liberdade de imprensa é expurgar as práticas criminosas que se escondem debaixo do seu manto.

Blog do Luis Nassif

Merval no reino da ABL: intelectual e de esquerda

Do Portal Imprensa

Crédito: Guilherme Gonçalves/ ABL

Merval Pereira

No emblemático ano de 1968, aos 18 anos, o jovem Merval Pereira entrou na redação de “O Globo” como repórter-estagiário para galgar, pouco a pouco, as funções de editor-chefe, diretor de redação, diretor executivo do Infoglobo e diretor de Jornalismo de Mídia Impressa e Rádio das Organizações Globo.

gin-top: 1em; margin-right: 0px; margin-bottom: 1em; margin-left: 0px; font-size: 12px; line-height: 1.6em; text-align: justify;">Com passagens pela Veja, entre 1982 e 1985, onde foi chefe das sucursais de Brasília e Rio, e editor de nacional em São Paulo, e pelo Jornal do Brasil, como editor-executivo, hoje é colunista deO Globo, comentarista político do Globo News e Rádio CBN, e membro do Conselho Editorial do conglomerado carioca.

Autor dos livros “A segunda guerra, sucessão de Geisel”, série de reportagens escritas com André Gustavo Stumpf, e “O Lulismo no Poder” (2010), compilação de artigos feita durante os governos Lula, foi eleito em 2011 para ocupar a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras (ABL), batendo o escritor baiano Antônio Torres por 25 votos a 13.

Em entrevista exclusiva à IMPRESA, o imortal elogia o jornalismo político brasileiro, critica os jornalistas que questionam sua presença na ABL – “Só com má-fé e militância política é possível discutir minha presença na Academia” – e não foge do velho debate entre direita e esquerda.

Para Merval, uma nova liderança conservadora no país seria positiva para a política nacional. Rejeita, porém, qualquer rótulo pelo posicionamento. “Mas aí acham que sou ‘de direita’, o que é uma simplificação constrangedora”.

JORNALISMO

IMPRENSA – O que pensa do jornalismo político praticado no país? Como o repórter da área se diferencia e quais falhas devem ser evitadas?

MERVAL PEREIRA – É de muito boa qualidade, como a média do jornalismo praticado no país. É preciso conhecer História, e não apenas a do Brasil, mas se trata, basicamente, de ter boas fontes de informação e saber tirar ilações dos fatos que estão ocorrendo, para não ficar apenas tratando do dia-a-dia. Quando comecei a trabalhar n’O Globo, fui fazer Esportes, estimulado pelo Evandro Carlos de Andrade, que me disse que as politicagens dos bastidores esportivos são muito semelhantes às do futebol, e estava certo. Foi um bom aprendizado. A maior falha é a mesma em qualquer setor: ficar refém das fontes, sem entender quando está sendo manipulado.

Lula e Franklin Martins trabalharam duro pelo projeto de regulação da mídia. Dilma tem, ao menos aparentemente, se esquivado do projeto. Você vê traço autoritário no projeto? Acha que ele ainda possa ter sobrevida na gestão Dilma?

Espero que não tenha futuro, pois ele é elaborado com o intuito de controlar a mídia de maneira geral e montar mecanismos que permitam ao governo, através de órgãos a serem criados, exercer pressão sobre os jornalistas independentes. O escândalo que é o financiamento de blogs chapas-brancas por bancos estatais e outros mecanismos é um claro exemplo de que o governo tenta montar um esquema midiático que trabalhe a seu favor, enquanto tenta aprovar uma legislação para constranger o exercício da livre imprensa.

DIREITA VS. ESQUERDA

Suas opiniões são, em geral, mais associadas às idéias ditas de “direita”, do que de “esquerda”. Você se considera “de direita”? Acha que ainda há espaço para esse tipo de distinção ideológica?

Essa sua definição tem mais a ver com a tentativa do PT de colocar todos os seus "adversários" no corner, como se fossem direitistas tacanhos, contra um governo "progressista" de esquerda. Nem o governo do PT é "de esquerda", nem todos os seus críticos são "de direita". Um governo que tem como principais apoiadores o Bispo Macedo, o PMDB, o PP, o PTB, o Sarney, o Renan Calheiros, o Jader Barbalho, não pode ser considerado de esquerda, não é mesmo? Da mesma forma, é até engraçado quem diz que o PSDB é um partido "de direita", ou que o Fernando Henrique ou o Serra são políticos "de direita". Quanto a mim, sempre fui mais ligado à esquerda, quando essa divisão ainda fazia sentido. Hoje, se levarmos em conta a definição de Norberto Bobbio, de que a esquerda está mais preocupada com a desigualdade do que a direita, eu poderia ser considerado "de esquerda". A questão é quando se discute como acabar com a desigualdade. Nesse caso, acho que as oportunidades devem ser iguais, a partir da educação, mas acredito que como os homens são desiguais entre si, sempre haverá diferenças pela inteligência, pela capacidade de cada um. Eu acredito que o Estado deva interferir para reduzir essa desigualdade, mas não creio que ele seja a solução do problema, e nesse caso eu poderia ser considerado "de direita".

Em algum grau, ser associado à “direita” ainda é um problema, uma espécie de tabu, para quem atua na imprensa brasileira? A seu ver, por que isso acontece?

Não creio que seja tabu, mesmo por que a maioria da população é conservadora. Acho que na política partidária, sim, existe esse preconceito, tanto que nenhum partido quer ser classificado como "de direita". Aliás, o Brasil é talvez o único país do mundo em que não existem políticos "de direita", que defendam o conservadorismo. Eu defendo que seria muito bom para nosso desenvolvimento político que surgisse um líder conservador que não tivesse receio de defender suas teses. Mas aí acham que sou "de direita". É uma simplificação constrangedora.

Que tipo de valores, princípios e políticas esse líder deveria defender para o bem do debate político brasileiro?

Defenderia o programa que qualquer partido conservador defende mundo afora, com pequenas modificações: liberalismo econômico, estado mínimo para não se meter nas liberdades individuais. Valores conservadores, como a luta contra o aborto, por exemplo. Há o radicalismo conservador, como o de setores do Partido Republicano dos Estados Unidosmas há o liberalismo social, que considera que o estado deve intervir para garantir o estado de bem-estar social. A privatização de serviços públicos já foi uma bandeira dos partidos conservadores ou liberais, mas hoje é uma necessidade em qualquer regime.

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

Você tem uma longa e exitosa carreira no jornalismo, mas, na carreira literária, seu ex-concorrente pela cadeira 31 da ABL, Antônio Torres, tem obra mais prolífica e consolidada em termos de produção ficcional. Sua eleição para a ABL te pegou de surpresa?

Seria até engraçado eu dizer que minha eleição para a ABL me pegou de surpresa. Como se pode ganhar uma eleição desse jeito? Nunca, durante todos os meses de campanha, tive dúvida sobre minha eleição. A dúvida era sobre quantos votos eu teria. Mas isso não deveria surpreender a ninguém, pois é uma tradição da ABL ter jornalistas em seus quadros. É um equívoco, geralmente de má-fé, querer comparar a produção literária de um escritor profissional com a de um jornalista. São produções distintas dentro da literatura. Por que eu, com 44 anos de profissão, tendo exercido todos os cargos mais altos em redações distintas de jornais, revistas e televisão, escrevendo uma coluna diária de jornal há dez anos, tendo recebido os maiores prêmios jornalísticos do Brasil e do exterior, não tenho condições de disputar uma cadeira na ABL?

O que você pensa sobre muitas críticas veiculadas sobre sua eleição (um ex: Luís Nassif) de que sua eleição teve influência de um poder político da Globo?

O Castelinho, que, para mim, foi o maior de todos, teria sido beneficiado pela pressão do Jornal do Brasil, quando foi eleito? Teria sido eleito pelo livro de contos que escreveu, ou por sua história no jornalismo? No meu discurso de posse fiz uma relação de dezenas de jornalistas que passaram pela ABL. Só mesmo com má-fé, ou por militância política, é possível discutir a minha presença na ABL. É diferente de querer ter a unanimidade. É claro que muitos podem preferir outros jornalistas ou outros escritores - 13 acadêmicos votaram no Antonio Torres -, mas o que destaca a má-fé ou a politização da discussão é quando jornalistas discutem a presença de um jornalista na ABL. Isso é surpreendente e chega a ser engraçado.

Mudou alguma coisa na sua vida pessoal e profissional depois da eleição para a ABL?

Na profissional, nada, nem mesmo o cachê de minhas eventuais palestras. Na pessoal, além do reconhecimento de uma das mais importantes instituições culturais do país, ganhei o convívio semanal com vários amigos, novos e antigos, e um debate muito rico intelectualmente.

CONSELHO AOS JOVENS JORNALISTAS

Como vê as novas gerações de jornalistas? Daria um conselho a eles?

A única coisa que temo é que leiam pouco. Os novos hábitos tecnológicos estão levando a um conhecimento superficial e imediatista. É preciso ler muito, de livros técnicos a romances; de biografias a papers acadêmicos.

Por Bento

A parte os ruidosos debates acerca dos atributos literários de seus membros, uma coisa é inegável: a ABL é uma casa plural ao extremo, parece ter a pretensão de representar toda a diversidade social e cultural do Brasil. Tem ou já teve jornalista, dono de jornal, músico, cirurgião plástico, ex-presidente, astrólogo, etc etc e mesmo com tanta diversidade sobrou espaço até para escritores entrarem lá de vez em quando.

No mais, Merval é mortal. Imortal de verdade não precisa dar entrevista explicando porque é o que é, e menos ainda se presta ao vexame de confessar que já calculava quantos votos teria, ofendendo a imagem da instituição que o recepcionou e a inteligência dos brasileiros, pois todos sabem que não há nada de democrático nesse processo seletivo e nem deveria haver mesmo, pois quem merece estar ali não disputa voto pois gera consenso e unanimidade.

Se é para ler entrevista de imortal, vou aguardar pela da Bruna Surfistinha, que em breve será ungida para a ABL. Essa sim valerá a pena ler. Aliás, a jovem escritora tem muito que ensinar ao Merval: enquanto ela já disse que na vida teve de engolir muita coisa pior que o orgulho, ele pelas entrevistas que dá parece ter cada vez mais orgulho do que engole.

Blog do Luis Nassif

Como funcionava a parceria Veja-Cachoeira

"O araponga e o repórter", da série "O caso de Veja", de 2008

A matéria foi bombástica e ajudou a deflagrar a crise do “mensalão”. Uma reportagem de 18 de maio de 2005, de Policarpo Jr., da sucursal da Veja em Brasília, mostrava o flagrante de um funcionário dos Correios – Mauricio Marinho – recebendo R$ 3 mil de propina (clique aqui)



A abertura seguia o estilo didático-indagativo da revista:

(…) Por quê? Por que os políticos fazem tanta questão de ter cargos no governo? Para uns, o cargo é uma forma de ganhar visibilidade diante do eleitor e, assim, facilitar o caminho para as urnas. Para outros, é um instrumento eficaz para tirar do papel uma idéia, um projeto, uma determinada política pública. Esses são os políticos bem-intencionados. Há, porém, uma terceira categoria formada por políticos desonestos que querem cargos apenas para fazer negócios escusos – cobrar comissões, beneficiar amigos, embolsar propinas, fazer caixa dois, enriquecer ilicitamente.

A revista informava que tinha conseguido dar um flagrante em um desses casos na semana anterior:

Raro, mesmo, é flagrar um deles em pleno vôo. Foi o que VEJA conseguiu na semana passada.

Anotem a data que a revista menciona que recebeu a gravação: semana passada. Será importante para entender os lances que serão mostrados no decorrer deste capítulo.

A matéria, como um todo, não se limitava a descrever uma cena de pequena corrupção explícita, embora só esta pudesse ser comprovada pelo grampo. Tinha um alvo claro, que eram as pessoas indicadas pelo esquema PTB, especialmente na Eletronorte e na BR Distribuidora. O alvo era o esquema; Marinho, apenas o álibi.

O que a matéria não mostrava eram as intenções efetivas por trás do dossiê e do grampo. Os R$ 3 mil eram um álibi para desmontar o esquema do PTB no governo, decisão louvável, se em nome do interesse público; jogo de lobby, se para beneficiar outros grupos.

Antes de voltar à capa, uma pequena digressão sobre as alianças espúrias do jornalismo.

Os dossiês e os chantagistas

A partir da campanha do “impeachment” de Fernando Collor, jornalistas, grampeadores e chantagistas passaram a conviver intimamente em Brasília. Até então, havia uma espécie de barreira, que fazia com que chantagistas recorressem a publicações menores, a colunistas da periferia, para montar seus lobbies ou chantagens. Não à grande mídia.

Com o tempo, a necessidade de fabricar escândalo a qualquer preço provocou a aproximação, mais que isso, a cumplicidade entre alguns jornalistas, grampeadores e chantagistas. Paralelamente, houve o desmonte dos filtros de qualidade das redações, especialmente nas revistas semanais e em alguns diários.

Foi uma associação para o crime. Com um jornalista à sua disposição, o grampeador tem seu passe valorizado no mercado. A chantagem torna-se muito mais valiosa, eficiente, proporcional ao impacto que a notícia teria, se publicada. Isso na hipótese benigna.

É uma aliança espúria, porque o leitor toma contato com os grampos e dossiês divulgados. Mas, na outra ponta, a publicação fortalece o achacador em suas investidas futuras. Não se trata de melhorar o país, mas de desalojar esquemas barra-pesadas em benefício de outros esquemas, igualmente barra-pesadas, mas aliados ao repórter. E fica-se sem saber sobre as chantagens bem sucedidas, as que não precisaram chegar às páginas de jornais.

Por ser um terreno minado, publicações sérias precisam definir regras claras de convivência com esse mundo do crime. A principal é o jornalista assegurar que material recebido será publicado – e não utilizado como elemento de chantagem.

Nos anos 90 esses preceitos foram abandonados pelo chamado jornalismo de opinião. No caso da Veja a deterioração foi maior que nos demais veículos. O uso de matérias em benefício pessoal (caso dos livros de Mario Sabino), o envolvimento claro em disputas comerciais (a “guerra das cervejas” de Eurípedes Alcântara), o lobby escancarado (Diogo Mainardi com Daniel Dantas), a falta de escrúpulos em relação à reputação alheia, tudo contribuiu para que se perdessem os mecanismos de controle.

Submetida a um processo de deterioração corporativa poucas vezes visto, a Abril deixou de exercer seus controles internos. E a direção da revista abriu mão dos controles externos, ao abolir um dos pilares do moderno jornalismo – o direito de resposta – e ao intimidar jornalistas de outros veículos com seus ataques desqualificadores.

É nesse cenário de deterioração editorial que ocorre o episódio Maurício Marinho.

A parceria com o araponga

Nas alianças políticas do governo Lula, os Correios foram entregues ao esquema do deputado Roberto Jefferson. Marinho era figura menor, homem de propina de R$ 3 mil.

Em determinado momento, o esquema Jefferson passou a incomodar lobistas que atuavam em várias empresas. Dentre eles, o lobista Arthur Wascheck.

Este recorreu a dois laranjas – Joel dos Santos Filhos e João Carlos Mancuso Villela – para armar uma operação que permitisse desestabilizar o esquema Jefferson não apenas nos Correios. como na Eletrobrás e na BR Distribuidora. É importante saber desses objetivos para entender a razão da reportagem da propina dos R$ 3 mil ter derivado - sem nenhuma informação adicional - para os esquemas ultra-pesados em outras empresas. Fazia parte da estratégia da reportagem e de quem contratou o araponga.

A idéia seria Joel se apresentar a Marinho como representante de uma multinacional, negociar uma propina e filmar o flagrante. Como não tinham experiência com gravações mais sofisticadas, teriam decidido contratar o araponga Jairo Martins.

E, aí, tem-se um dos episódios mais polêmicos da história do jornalismo contemporâneo, um escândalo amplo, do qual Veja acabou se safando graças à entrevista de Roberto Jefferson à repórter Renata Lo Prete, da Folha, que acabou desviando o foco da atenção para o “mensalão”.

Havia um antecedente nesse episódio, que foi o caso Valdomiro Diniz, a primeira trinca grave na imagem do governo Lula. Naquele episódio consolidaram-se relações e alianças entre um conjunto de personagens suspeitos: o bicheiro Carlinhos Cachoeira (que bancou a operação de grampo de Valdomiro), o araponga Jairo Martins (autor do grampo) e o jornalista Policarpo Jr (autor da reportagem).

No caso Valdomiro, era um contraventor – Carlinhos Cachoeira – sendo achacado por um dos operadores do PT, enviado pelo partido ao Rio de Janeiro, assim como Rogério Buratti, despachado para assessorar Antonio Palocci quando prefeito de Ribeirão.

Jairo era um ex-funcionário da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), contratado pelo bicheiro para filmar o pagamento de propina a Valdomiro Diniz.

Tempos depois, Jairo foi convidado para um almoço pelo genro de Carlinhos Cachoeira, Casser Bittar.

Lá, foi apresentado a Wascheck, que o contratou para duas tarefas, segundo o próprio Jairo admitiu à CPI: providenciar material e treinamento para que dois laranjas grampeassem Marinho; e a possibilidade do material ser publicado em órgão de circulação nacional.

Imediatamente Jairo entrou em contato com Policarpo e acertou a operação. O jornalista não só aceitou a parceria, antes mesmo de conhecer a gravação, como avançou muito além de suas funções de repórter.

O grampo em Marinho foi gravado em um DVD. Jairo marcou, então, um encontro com Policarpo. Foi um encontro reservado - eles jamais se falavam por telefone, segundo o araponga -, no próprio carro de Policarpo, no Parque da Cidade. Policarpo levou um mini-DVD, analisou o material e atuou como conselheiro: considerou que a gravação ainda não estava no ponto, que havia a necessidade de mais. Recebeu a segunda, constatou que estava no ponto. E guardou o material na gaveta, aguardando a autorização do araponga, mesmo sabendo que estava se colocando como peça passiva de um ato de chantagem e achaque.

Wascheck tinha, agora, dois trunfos nas mãos: a gravação da propina de R$ 3 mil e um repórter, da maior revista do país, apenas aguardando a liberação para publicar a reportagem.

Quando saiu a reportagem, a versão do repórter de que havia recebido o material na semana anterior era falsa e foi desmentida pelos depoimentos dados por ele e por Jairo à Policia Federal e à CPI do Mensalão.

Pressionado pelo eficiente relator Osmar Serraglio, na CPI do Mensalão, Jairo negou ter recebido qualquer pagamento de Wascheck. Disse ter se contentado em ficar com o equipamento, provocando reações de zombaria em vários membros da CPI.

Depois, revelou outros trabalhos feitos em parceria com a Veja. Mencionou série de trabalhos que teria feito e garantiu que sua função não era de araponga, mas de jornalista. O único órgão onde seus trabalhos eram publicados era a Veja. Indagado pelos parlamentares se recebia alguma coisa da revista disse que não, que seu objetivo era apenas o de "melhorar o pais".

Segundo o depoimento de Jairo:

Aí fiquei esperando o OK do Artur Washeck pra divulgação do material na imprensa. Encontrei com ele pela última vez no restaurante, em Brasília, no setor hoteleiro sul, quando ele disse: ‘Eu vou divulgar o fato. Quero divulgar’. E decorreu um período que essa divulgação não saía. Aí foi quando eu fiz um contato com o jornalista e falei: ‘Pode divulgar a matéria’’.

Clique aqui para ler os principais trechos do depoimento do araponga Jairo à CPI.

E aqui para acessar o relatório final da CPMI.

Reações na mídia

A revelação do episódio provocou reações acerbas de analistas de mídia.

No Observatório da Imprensa, Alberto Dines publicou o artigo “A Chance da Grande Catarse do Jornalismo”

O atual ciclo de denúncias não chega a ser uma antologia de jornalismo mas é uma preocupante coleção de mazelas jornalísticas. Busca-se a credibilidade mas poucos oferecem transparência, pretende-se a moralização da vida pública mas os bastidores da imprensa continuam imersos na sombra:
Tudo começou com uma matéria de capa da Veja sobre as propinas nos Correios, clássico do jornalismo fiteiro.

(...) Carece de (...) transparência a ouverture desta triste e ruidosa temporada através da Veja. Dois meses depois, a divulgação do vídeo da propina nos Correios continua envolta em sombras, rodeada de dúvidas e desconfianças. E, como não poderia deixar de acontecer com fatos mantidos no lusco-fusco da dubiedade, cada vez que a matéria é examinada ou discutida sob o ponto de vista estritamente profissional, mais interrogações levanta.

Caso da entrevista ao Jornal Nacional (Rede Globo, quinta-feira, 30/6) do ex-agente da ABIN, Jairo Martins de Souza, autor da gravação. O araponga — que, aliás, se diz jornalista [veja abaixo comentários de Ricardo Noblat] e faz negócios com jornalistas — revelou que ofereceu o vídeo ao repórter Policarpo Júnior, da sucursal da Veja em Brasília, e que este aceitou-o antes mesmo de examinar o seu teor [abaixo, a transcrição da matéria do JN].

Na hora da entrega, o jornalista teria usado um reprodutor portátil de DVD para avaliar a qualidade das imagens. De que maneira chegou ao jornalista e por que este aceitou o vídeo são questões que até hoje não foram esclarecidas.

Tanto o repórter como a revista recusam-se terminantemente a oferecer qualquer tipo satisfação ou esclarecimento aos leitores. Não se trata de proteger as fontes: elas seriam inevitavelmente nomeadas quando o funcionário flagrado, Maurício Marinho, começasse a depor. Foi exatamente o que aconteceu e hoje Veja carrega o ônus de ter se beneficiado de uma operação escusa – chantagem de um corrupto preterido ou ação formal da Abin para desmoralizar um aliado incômodo (o PTB, de Roberto Jefferson).

(...) Araponga não é jornalista, vídeo secreto ainda não é reconhecido como gênero de jornalismo. Talvez o seja num futuro próximo.

O episódio mereceu comentários do blogueiro Ricardo Noblat:

Ao ser contratado para filmar Marinho e grampear André Luiz, a primeira coisa que ele disse que fez foi procurar a Veja e oferecer o material. ‘Foi um trabalho puramente jornalístico’, garantiu.

A amigos, nas duas últimas semanas, Jairo confessou mais de uma vez que espera ganhar o próximo Prêmio Esso de Jornalismo. Ele se considera um sério candidato ao prêmio.

Não é brincadeira não, é serio! Porque ele está convencido de que filmou e grampeou como free-lancer da Veja – embora jamais tenha recebido um tostão dela por isso. Recebeu dos que encomendaram as gravações.

Jairo ganhava como araponga e pensava em brilhar como jornalista.

É, de certa forma faz sentido."

Tempos depois, a aliança com o araponga renderia a Policarpo a promoção para chefe de sucursal da Veja em Brasília. A revista já caíra de cabeça, sem nenhum escrúpulo, no mundo nebuloso dos dossiês e dos pactos com lobistas. E o grande pacto do silêncio que se seguiu na mídia, permitiu varrer para baixo do tapete as aventuras de Veja com o araponga repórter.

O final da história

Parte da história terminou em agosto de 2007. Sob o titulo “PF desmonta nova máfia nos Correios”, o Correio Braziliense noticiava o desbaratamento de uma nova quadrilha que tinha assumido o controle dos Correios (clique aqui).

No comando, Arthur Wascheck, que assumiu o comando da operação de corrupção dos Correios graças ao serviço encomendado a Jairo - grampo mais publicação do resultado na Veja.

Durante a Operação Selo, foram presas cinco pessoas, em dois estados mais o Distrito Federal.

Segundo o jornal:

Entre os presos estão Sérgio Dias e Luiz Carlos de Oliveira Garritano, funcionários dos Correios, além dos empresários Antônio Félix Teixeira, Marco Antônio Bulhões e Arthur Wascheck, considerado pela PF como líder do grupo e acusado de ter sido o responsável pela gravação feita no dia em que Marinho recebia a propina. Os investigadores não quantificaram o volume de recursos envolvidos nas fraudes, mas calculam que seja de dezenas de milhões de reais.

De acordo com os investigadores, “o grupo agia como traficantes nos morros".

“Havia uma quadrilha na ECT (Empresa de Correios e Telégrafos), que foi desbaratada e afastada. A outra organização tomou o lugar dela. Assim como os traficantes fazem, quando saem, morrem ou são presos, acontece a mesma coisa no serviço público. Quando uma quadrilha sai do local, entra outra e começa a praticar atos ilícitos no lugar da que saiu”, explica o delegado Daniel França, um dos integrantes do grupo de investigação.

A corrupção tinha apenas trocado de mãos:

Para o Ministério Público Federal, o entendimento era o mesmo.

“Não se pode dizer que a corrupção terminou ou se atenuou. O que houve foi uma substituição de pessoas, alijadas do esquema”, afirma o procurador da República Bruno Acioli.

Segundo ele, há pelo menos 20 empresas, muitas delas ligadas a Wascheck, estão envolvidas nas fraudes que podem atingir outros órgãos públicos, conforme investigações da PF.

A ficha de Wascheck era ampla e anterior ao episódio do qual Veja aceitou participar:

O empresário, conforme os investigadores, atuava na área de licitações desde 1994, sendo que um ano depois ele fora condenado por irregularidades em licitação para aquisição de bicicletas pelo Ministério da Saúde.

O valor das fraudes chegava a milhões de reais:

Segundo a polícia, o grupo de Wascheck vendia todo tipo de material para os Correios. De sapato a cofres, sendo que muitos integrantes do esquema eram também procuradores de outras empresas envolvidas nas concorrências. Com a análise dos documentos, que começou a ser feita ontem, os investigadores devem chegar aos valores das fraudes. “O que posso dizer é que esse prejuízo é de milhões de reais. Dezenas de milhões de reais”, diz o procurador da República, ressaltando que seu cálculo se baseia em alguns casos específicos. “Existem licitações na casa de bilhões de reais”, afirma o procurador.

No sistema de buscas da revista, as pesquisas indicam o seguinte:

Operação Selo Wascheck: 0 ocorrências

Operação Selo (frase exata) Período 2007: 0 ocorrências

Revista de 8 de agosto de 2007: nenhuma menção

Na edição de 15 de agosto, nenhuma menção. Mas uma das materias especiais atende pelo sugestivo título de “Porque os corruptos não vão presos”

"Frágil como papel

A Justiça brasileira é incapaz de manter presos assassinos
confessos e corruptos pegos em flagrante. Na origem da
impunidade está a própria lei".

A reportagem fala do mensalão, insinua que os implicados até melhoraram de vida, menciona símbolos midiáticos de corrupção (Quércia, Maluf, Collor etc). Nenhuma palavra sobre a Operação Selo e sobre o papel desempenhado pelas reportagens de escândalo da própria revista no jogo das quadrilhas dos Correios.

Seus aliados foram protegidos.

Blog do Luis Nassif