domingo, 20 de novembro de 2022

Cesar Calejon: “Estamos lidando com um movimento de cunho fascista”

"Tomaria muito cuidado como em nenhuma outra ocasião da nossa República”, frisou o jornalista

18 de novembro de 2022

(Foto: Reprodução/Twitter)


247 - O jornalista Cesar Calejon advertiu durante participação no programa Giro da Onze, da TV 247, que é preciso ficar alerta ao movimento bolsonarista após a derrota nas urnas.

“Estamos lidando com um movimento de cunho fascista. Tudo que é necessário é que uma pessoa esteja enlouquecida o bastante para se aproximar com uma arma e efetivamente produzir um assassinato. Tomaria muito cuidado como em nenhuma outra ocasião da nossa República”, frisou Calejon

Autor de livros como ‘Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI’ (Editora Kotter) e ‘Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil’ (Editora Contracorrente) e o mais recente intitulado "Sobre Perdas e Danos: negacionismo, lawfare e neofascismo no Brasil", Calejon afirma que há “uma certa condescendência das instituições brasileiras” com as ações de bloqueios de estradas e ocupações em frente a quartéis.

Ele disse ainda que é preciso fortalecer a comunicação do campo progressisa.

“Me parece uma medida fulcral que o novo governo deve adotar de não deixar a mídia e as redes sociais se pautarem sem um uma rígida atuação”, disse.


Brasil 247

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Tolerância só tornará golpismo permanente

 Fernando Brito



Ainda no grau “arraia-miúda”, o Estadão publica hoje parte dos relatórios fornecidos pelas polícias e ministérios públicos estaduais onde se aponta organizadores dos bloqueios nas estradas que infernizaram o país uma quinzena atrás.

É pouco e dificilmente avançará sem que, retirados os comprometimentos da Polícia Federal, esta possa avançar na comprovação do que é evidente: que houve (e continua havendo) uma coordenação geral em atos de contestação ao processo democrático e às eleições de outubro.

E, ainda, com a renovação dos comandos militares e do Ministério da Defesa para que se ponha fim à ambiguidade intolerável da cúpula das Forças Armadas com as concentrações golpistas diante dos quartéis. O que, infelizmente, já deveria estar acontecendo e, talvez, ainda aconteça, à medida que o pragmatismo castrense opte por por não afundar ainda mais a credibilidade da instituição militar.

Aliás, um “erro” muito estranho, porque ainda os sujeita ao risco de iniciativas irresponsáveis, sempre possíveis num ainda presidente que se alienou completamente das responsabilidades de governo e está num estado imprevisível de baixa racionalidade e alta depressão. Que, no caso de Bolsonaro, já era grave mesmo antes da derrota eleitoral.

Por tudo isso, o papel de Alexandre de Moraes e do Supremo Tribunal Federal – mais coeso depois doas ataques de grupos bolsonaristas a seus integrantes, é extremamente importante nesta transição de governo. A responsabilização dos promotores da arruaça pós-eleitoral é um freio necessário à ideia de que manifestações pedindo intervenção militar e quebra das regras constitucionais pode prosseguir, insolente e impunemente, contestando o resultado eleitoral que sequer se tenta fazer pelos caminhos legais, apenas pelo apelo às armas.


Tijolaço

O Brasil voltou e “pagou geral”

 Fernando Brito




Durante quase 30 minutos do seu discurso na Conferência do Clima, Lula foi a antítese do que a nossa elite acha que dá certo (e nunca deu) em matéria de diplomacia.

O homem que ocupava o microfone era tudo, menos um pedinte.

Não condicionou nossa capacidade de preservar a Amazônia e os outros biomas brasileiros à ajuda internacional mas, ao contrário, assinalou que o mundo que precisa tanto ou mais do que precisamos nós da preservação da floresta, do cerrado, do que nos resta de matas e campos.

“Não há segurança climática para o mundo sem uma Amazônia protegida”.

E não pode haver Amazônia protegida se há um Brasil injusto e instável, onde a crise e a pobreza abram caminho para governos selvagens como o que tivemos, que opta pelos lucros dos aventureiros porque não pode alcançar padrões dignos para a vida humana, porque o mundo não limita, senão nos países ricos, a selvageria das relações do capital.

Os povos originários e aqueles que residem na região Amazônica devem ser os protagonistas da sua preservação. Os 28 milhões de brasileiros que moram na Amazônia têm que ser os primeiros parceiros, agentes e beneficiários de um modelo de desenvolvimento local sustentável, não de um modelo que ao destruir a floresta gera pouca e efêmera riqueza para poucos, e prejuízo ambiental para muitos.

Apontou para o que o Brasil tem para oferecer em agricultura e pecuária sem devastação, ao falar das áreas degradadas que, com investimento e tecnologia, podem dar ao país quase o mesmo dos 36 milhões de hectares ocupados hoje pela soja:

Temos 30 milhões de hectares de terras degradadas. Temos conhecimento tecnológico para torná-las agricultáveis. Não precisamos desmatar sequer um metro de floresta para continuarmos a ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo.

Qual é a dificuldade de investir nesta recuperação, com acordos de compra antecipada da sua produção, como se faz com outras commodities, como o petróleo? Por que ambicionar a compra de nossas terras, quando se pode comprar o que elas produzem sem tirá-las das mãos dos brasileiros?

Estamos abertos à cooperação internacional para preservar nossos biomas, seja em forma de investimento ou pesquisa científica. Mas sempre sob a liderança do Brasil, sem jamais renunciarmos à nossa soberania.

Mas Lula não apenas enunciou princípios, apresentou propostas ou, antes, definiu os espaços onde elas podem ser apresentadas, discutidas e aceitas: a cooperação entre os países amazônicos, entre os que detêm o remanescente das florestas tropicais (aqui, a África e a Indonésia), propôs uma “Aliança Mundial pela Segurança Alimentar”, que dê ao combate à fome status igual ao que alcançaram as preocupações ambientais.

“A luta contra o aquecimento global é indissociável da luta contra a pobreza e por um mundo menos desigual e mais justo.”

E, sobretudo, cobrou que o mundo tenha novas formas de decisão, mais equilibradas e eficientes, com mudanças na governança das Nações Unidas para que as decisões da comunidade internacional não sejam letra morta ou mero nhenhenhém.

Em 2009, os países presentes à COP 15 em Copenhague comprometeram-se em mobilizar 100 bilhões de dólares por ano, a partir de 2020, para ajudar os países menos desenvolvidos a enfrentarem a mudança climática. Este compromisso não foi e não está sendo cumprido.

Foi, enfim, um discurso que se pode resumir em “o Brasil vai fazer a sua parte, mas também exigir que os países ricos façam a sua”, porque são eles que abafam o planeta com emissões mas acham que somos nós, apenas, os vilões da degradação do clima.


Tiijolaço