QUA, 21/10/2015 - 10:31
Os ideólogos neoconservadores preparam novos botes
Por Eugenio García Gascón, no Público, de Madrid
Tradução de Ricardo Cavalcanti-Schiel
Entrincheirados em respeitáveis instituições acadêmicas norte-americanas, eles aguardam uma nova oportunidade. Não se arrependem da invasão do Iraque nem do dano irreparável que causaram no Oriente Médio, e esperam outra ocasião para pôr em prática suas ideias.
Os ideólogos neoconservadores que conduziram o Oriente Médio ao pior momento da sua história já preparam as próximas arremetidas a partir dos assim chamados “centros de estudos estratégicos” e das universidades norte-americanas onde permanecem entocados.
Não apenas pululam em torno dos candidatos republicanos para as eleições presidenciais de 2016, como parece mais natural, como também juntam-se aos candidatos democratas, como é o caso de Hillary Clinton, que conta com Robert Kagan entre seus assessores mais destacados, um dos aríetes mais beligerantes do movimento. Sua esposa, a diplomata Victoria Nuland, foi porta-voz de Hillary. Kagan faz parte do plantel da Brookings Institution e do Council on Foreign Relations, além de elaborar continuamente publicações que defendem a política neoconservadora que advoga em favor do intervencionismo militar como meio para implantar a “democracia” no mundo e, em especial, no Oriente Médio.
Um dos mitos desse movimento, expresso recentemente em um editorial do Wall Street Journal, propugna que o presidente Barack Obama é o responsável pelo descalabro no Iraque, enquanto que o seu predecessor, George Bush, teria endereçado o país para o bom caminho quando deixou a Casa Branca há sete anos. Acusam Obama de ter abandonado o Iraque e o Irã com a evacuação das tropas americanas em 2011.
A realidade, no entanto, é que a invasão de 2003 pôs o Iraque nas mãos da maioria xiita e empurrou a minoria sunita para o banditismo. No território sunita formou-se uma infinidade de grupos jihadistas, o mais notável dos quais viria a ser o Estado Islâmico.
Os “centros de estudos estratégicos” e as universidades são os refúgios naturais dos ideólogos neoconservadores. A partir daí não apenas inundam as revistas e os editoriais com as suas publicações, como também formam os jovens que nas gerações seguintes determinarão o sentido da política exterior dos Estados Unidos.
Alguns dos centros desse tipo mais relevantes no mundo neoconservador são a Fundation for the Defense of Democracies, a Henry Jackson Society, o Hudson Institute, o Jewish Institute for National Security Affairs, o Project of the New American Century e o American Enterprise Institute, entre muitos outros. Entre os principais ideólogos figuram Fuad Ajami, Elliott Abrams, Richard Perle, Paul Wolfowitz, Douglas Feith e William Kristol. Boa parte deles ocupou posições notavelmente relevantes na administração governamental e outros atuaram como franco-atiradores a partir de fora.
O jornal [progressista de Tel Aviv] Haaretz observou que “a maioria” dos ideólogos neoconservadores “são judeus” e, de fato, essa circunstância, apontada em mais de uma ocasião, gerou debate nos Estados Unidos. Alguns chegam a sustentar, com algum exagero, que “neoconservador” e “judeu” são “sinônimos”, enquanto outros acusam esses últimos de “antisemitas”. Muitos dos primeiros ideólogos neoconservadores foram importantes sionistas que publicaram seus artigos na Commentary, a revista do American Jewish Committee (Comitê Judáico Americano).
Robert Kagan já defendia a guerra contra o Iraque em 1997, e nunca se cansou de ameaçar o Irã com uma intervenção militar. Essa posição coincide plenamente com a que defende o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu há muitos anos, e custou a Kagan acusações de dupla lealdade.
Em seu best-seller The Road to Iraq: The Making of a Neoconservative War [Marcha para o Iraque: A construção da guerra neocon], Muhammad Ahmad sustenta que a ideologia neoconservadora se fundamenta em três pilares: o militarismo, o unilateralismo e um firme compromisso com o sionismo, ao mesmo tempo que promove uma “israelização” da política exterior dos Estados Unidos. Ahmad argumenta que os neoconservadores diziam pretender criar um “caos criativo”, mas, por fim, criaram apenas um caos sem matizes, que arrasou o Oriente Médio de uma forma sem precedentes. Como escreveu um analista americano, “no lugar de mostrar a força dos Estados Unidos, como apregoam os neoconservadores, a guerra do Iraque acabou mostrando suas debilidades”.
Como vários dos seus colegas, Robert Kagan qualificou a Europa como “ingênua” e de não estar disposta a defender os valores que supostamente abriga. Por sorte, para isso serviriam os Estados Unidos, diz Kagan, pois só os norte-americanos entendem em que implica o exercício do “poder”, qual seja, no uso da força.
Esse raciocínio ignora o que ocorreu no Iraque e nos demais países da região, que se viram destroçados pela força porque um grupo de ideólogos se empenhou em levar a “democracia” fosse a que preço fosse, sem ter em conta a situação histórica, religiosa e política desses países. O que menos se pode dizer é que essa proposta tenha sido “ingênua”. Provavelmente, isso sim, foi astuta o suficiente para, num piscar de olhos, criar um “caos destrutivo” no lugar do tal “caos criativo”.
A influência de Kagan sobre Hillary Clinton pode ser observada em mais de uma expressão. Recentemente, a pré-candidata democrata declarou que “o vazio deixado pelos Estados Unidos encheu o Iraque e a Síria de jihadistas”, uma ideia lavrada há muito tempo pelos ideólogos neoconservadores.
A administração norte-americana não renegou as ideias neoconservadoras quando o presidente Obama chegou à Casa Branca. Ao contrário, continuou flertando com elas e aplicando-as a ponto de assumi-las como próprias, com o resultado que bem se conhece. Obama deixará a Casa Branca em janeiro de 2017 e então outra época se abrirá. O mal que já se causou é irreversível, mas, para qualquer um que ganhe as eleições, os ideólogos neoconservadores estarão à espreita, para continuar dando seus botes assim que a ocasião se apresente.
Jornal GGN
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