terça-feira, 20 de outubro de 2015

Pedido de impeachment dá aval moral para Cunha, por Janio de Freitas

TER, 20/10/2015 - 09:29


Jornal GGN - Em sua coluna na edição de hoje da Folha de S. Paulo, o jornalista Janio de Freitas diz que o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, assinado por Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr. e previsto para ser entregue hoje a Eduardo Cunha (PMDB-RJ), subentende um aval moral para o presidente da Câmara e implica Bicudo e Reale Jr. na defesa contra a cassação do parlamentar. Além disso, para o jornalista, o documento representam a "balbúrdia ética e o nonsense" nas relações entre os Poderes, resultando em uma "perda generalizada de percepção da realidade".

Em outra nota, Janio ressalta que Eduardo Cunha emitiu notas contestando a Procuradoria Geral da República através da Assessoria de Comunicação da Câmara. Para ele, o teor das notas são dizem respeito a Cunha, e não à Câmara, e, por isso, representam desvio de finalidade da Assessoria e abuso funcional de poder. 

Da Folha


Janio de Freitas

Se é em nome da ética e da lei que o ex-promotor Hélio Bicudo e o jurista Miguel Reale Jr. vão entregar a Eduardo Cunha, como previsto para hoje (20), o pedido de impeachment da presidente, está subentendido um aval moral que implica os dois também em atitude inversa: a defesa, contra a cassação já pedida, do personagem das manchetes mais recentes, aqui, e de investigações criminais na Suíça.

O documento e o ato providenciados pelo PSDB com Bicudo e Reale são oportunos em um sentido adicional. Configuram bem a balbúrdia ética e o nonsense instalados nas relações entre Poderes, no Congresso e em particular na Câmara, na imprensa e na contaminação epidêmica de ódios. De tudo resultando a perda generalizada de percepção da realidade, mesmo para ilustrados como Reale e Bicudo.

Ainda que ocorressem em dias ou semanas próximas, o falado afastamento de Cunha e a superação do impeachment não trariam a rearrumação em futuro próximo. O rescaldo desse ambiente caótico será grande e difícil. Mas nem por isso há quem esteja pensando nisso.

Em países primários é assim.

INDEVIDO

As notas do deputado Eduardo Cunha –por exemplo as de contestação crítica a informações procedentes da Procuradoria Geral da República– são emitidas como atos de responsabilidade da Assessoria de Comunicação da Câmara. O que as motiva e o seu teor, porém, não dizem respeito à Câmara. Também não à presidência da Casa. São pessoais. De interesse de Cunha na condição de citado e investigado em inquéritos, por fatos alheios ao exercício da presidência da Câmara.

As notas derivam de um desvio de finalidade imposto à Assessoria de Comunicação. São abuso funcional de poder.

NA LEI

Intelectuais de São Paulo, sobretudo professores, lançaram no fim da semana passada a sua carta apartidária contra o impeachment. Tardou, mas saiu.

A partir do Rio, quando o ataque ao mandato estava mais aceso, foi tentado, entre escritores, pessoal de cinema e teatro, e correlatos, um pronunciamento apartidário em defesa do Estado de Direito. Ou seja, para que tudo, fosse o que fosse, se passasse nos limites da legislação. A intenção não conseguiu avançar.

Mas não ficou claro se os consultados desistiram da responsabilidade de intelectuais, desistiram do Brasil ou desistiram da democracia. A continuada firmeza do silêncio, ou apatia, sugere as três desistências. Que não incluem a Lei Rouanet e outras fontes.

VÁ LÁ

Você é convidado do PMDB. O partido faz amanhã a solenidade festiva de inclusão do retrato de Cunha na galeria dos ex-líderes da bancada. A homenagem é justa: ninguém no PMDB das últimas décadas fez mais, e está fazendo, pela história do partido do que Cunha.

Não perca. Ao que Cunha reitera, e ontem voltou a fazê-lo em mais uma nota, você só terá outra oportunidade quando da inclusão de novo retrato na galeria dos que presidiram a Câmara. Por dois mandatos.


Jornal GGN

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