Os ministros do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux e Rosa Weber
votaram nesta quinta-feira 4 pela condenação dos petistas José Dirceu,
José Genoino e Delúbio Soares e outros cinco réus (entre eles, Marcos
Valério) por corrupção ativa no processo do chamado “mensalão”. Com
isso, o ex-ministro da Casa Civil e o ex-presidente do PT têm agora três
votos pela condenação e um pela absolvição; Delúbio, ex-tesoureiro da
legenda, foi considerado culpado pelos quatro ministros que já votaram.
Na mesma sessão, votou antes o revisor do processo, Ricardo
Lewandowski. O magistrado havia absolvido Dirceu e Genoino por entender
que a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal não conseguiu
provar a participação dos réus no esquema, individualizar adequadamente
as condutas imputadas ao réu e nem descrever de forma satisfatória o
que o une aos demais acusados.
Segundo ele, a participação de Dirceu nos eventos é definida apenas
por suposições. “Não descarto a possibilidade de que ele seja o mentor e
que tenha participado, mas o fato é que isso não encontra ressonância
nos fatos, não há prova documental da quebra de sigilos, não há prova
pericial que comprove tal fato, muito embora o processo tenha se
arrastado por sete anos”, disse.
Lewandowski disse ainda que boa parte dos relatos das testemunhas
desmente as acusações da Procuradoria, que se baseou em ilações sobre
reuniões das quais ele apenas supostamente participou. Para o ministro, a
denúncia limitou-se a potencializar o fato de Dirceu exercer função
pública para imputar a execução dos crimes sem ao menos apontar quais
condutas delituosas ele praticou. “O MPF desenhou imputações vagas que
poderiam enquadrar qualquer funcionário do governo federal.”
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O revisor alegou ter ficado provado que, ao contrário do que diz a
acusação, Dirceu afastou-se das decisões do PT após se tornar ministro.
Por isso, não teria como saber dos pagamentos e dos empréstimos. “A
administração financeira do partido era inteiramente a cargo de Delúbio
Soares”, ressaltou. Para comprovar o argumento, trouxe diversos
depoimentos de parlamentares alegando tratar de assuntos financeiros
apenas com o ex-tesoureiro do PT.
Para o revisor, também não ficou comprovado que nas reuniões de
Dirceu com membros do BMG e do Banco Rural foi abordado o assunto sobre
os empréstimos fraudulentos ou a liquidação do Banco Mercantil de
Pernambuco. “A acusação menciona que a esposa de Valério ouviu dizer que
o marido ouviu de Delúbio que se tratou de empréstimos [na reunião com o Katia Rabello em Belo Horizonte]. Trata-se de ouvir dizer, uma prova desconfiável.”
Sobre o empréstimo da esposa de Dirceu e a venda do apartamento
supostamente intermediada por ele, o relator afirmou ser uma acusação
irrelevante para a conduta de corrupção ativa. “Ficou claro pelas provas
que Angela Saragoça era amiga de Silvio Pereira e por meio dele fez
contato com Valério, que participou da negociação do imóvel.”
Um dia antes, ao iniciar o seu voto, o revisor também havia apontado
falhas do MPF na denúncia contra o ex-presidente do PT José Genoino, que
ele considerou inocente das acusações. O argumento foi parecido: a
denúncia não conseguiu provar a participação do dirigente nos crimes
imputados contra ele.
Weber, por outro lado, considerou o ex-ministro culpado. Para ela,
não é possível acreditar que Delúbio, o único réu a admitir nos autos a
responsabilidade pela captação de recursos – por meio de empréstimos
fraudulentos, conforme entendimento do STF – teria conseguido sozinho 55
milhões de reais junto às empresas de Marcos Valério, já condenado pela
Corte.
Rosa Weber reservou parte de seu voto para minimizar a necessidade de
provas cobrada por Lewandowski. Ela disse que a lógica permite concluir
que houve crime porque delitos como os de intimidade, como o estupro, e
os de poder, como os de corrupção, ocorrem longe dos sistemas de
vigilância.
“Há uma maior elasticidade na admissão da prova de acusação”, disse
ela, para justificar o valor da “presunção”, criticada por Lewandowski.
Segundo ela, procede a denúncia em relação aos acusados de corrupção
ativa porque eles prometeram vantagem para votação com o governo, algo
que “se prova em votações e apoio ao governo no Congresso Nacional”.
“Mas nem isso seria necessário porque basta que o agente público tenha
poder de praticar ato de ofício e receba vantagem indevida para se
confirmar o delito”, concluiu.
Ela lembrou que os pagamentos de origem ilícita, conforme ficou
concluído pelo Plenário, “vieram sempre às escondidas, em malas e
quartos de hotel”. “Mesmo se fosse dinheiro limpo deixaria de ser
propina a caracterizar corrupção ativa e passiva.”
Tudo para concluir que, nos depoimentos de Delúbio Soares, chamou a
atenção o fato de o ex-tesoureiro ter assumido toda a responsabilidade
pelos fatos, sem envolver outras pessoas do PT.
“Ora, não é possível acreditar que o Delúbio sozinho teria
comprometido o PT com uma dívida de 55 milhões de reais. Sozinho e sem
conhecimento de ninguém, mesmo estando todos envolvidos na formação da
aliança. Só se Delúbio fosse uma mente privilegiada para conseguir
realizar tudo sozinho, e sem o conhecimento de mais ninguém. Gostaria de
acreditar, mas não consigo.”
E afirmou: “É implausível que Delúbio, sem o poder direto sobre a
máquina administrativa, tivesse conseguido os empréstimos com Valério”.
Em uma análise resumida, Luiz Fux seguiu na integridade o voto de
Barbosa. Segundo ele, não é possível “crer na atuação isolada de Delúbio
Soares” na condução do esquema, tendo tido a cooperação de Genoíno e
Dirceu.
Para condenar o ex-presidente do PT, o ministro sustentou que
depoimentos indicam a participação de Genoíno em reuniões com os líderes
dos partidos cooptados e provas mostram que realizou os empréstimos
fraudulentos. “Na qualidade de líder do PT não poderia desconhecer o
esquema”, disse. “Não se limitava a discutir apoio político, mas também
financeiro. Era responsável pela emissão dos cheques do PT, o que
reforça seu conhecimento obre as despesas e receitas do partido.”
Fux também colocou Dirceu como líder do suposto esquema, apontado por
diversos depoimentos como o articulador político dos acordos. “Não é
possível assumir que os acordos eram apenas políticos, eles vinham com o
financeiro.”
Até o momento, todos os quatro ministros que votaram consideraram
Marcos Valério, Cristiano Paz, Ramon Hollerback e Simone Vasconcelos
culpados por corrupção ativa. Rogério Tolentino foi absolvido apenas por
Lewandowski. Não houve divergências sobre a absolvição de Aderson
Adalto e Geiza Dias.
Saiba como votaram até agora os ministros nesta etapa do julgamento:
1) José Dirceu: 3 voto a 1 (Condenam: Joaquim Barbosa, Rosa Weber e Luiz Fux / Absolve: Ricardo Lewandowski)
2) José Genoíno: 3 voto a 1 (Condena: Joaquim Barbosa, Rosa Weber e Luiz Fux / Absolve: Ricardo Lewandowski)
3) Delúbio Soares: 4 votos pela condenação
4) Anderson Adauto: 4 votos pela absolvição
5) Marcos Valério: 4 voto pela condenação
6) Ramon Hollerbach: 4 votos pela condenação
7) Cristiano Paz: 4votos pela condenação
8) Rogério Tolentino: 3 voto a 1 (Condena: Joaquim Barbosa, Rosa Weber e Luiz Fux/ Absolve: Ricardo Lewandowski)
9) Simone Vasconcelos: 4 votos pela condenação
10) Geiza Dias: 4 votos pela absolvição
Carta Capital
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