Quanto mais passa o tempo, mais se confirma a participação direta,
ostensiva, dos Estados Unidos em aliança com civis e militares
brasileiros no golpe de 1964 que depôs o presidente constitucional João
Goulart – o Jango – e instalou no 1º de abril daquele ano a ditadura no
país. Que, infelizmente, nada teve de 1º de abril, de mentira; pelo
contrário, foi cruel, criminosa, nada de “ditabranda” como chegou a
dizer um dia a Folha de S.Paulo.
Agora, neste ano em que se completam 50 anos do golpe, conforme documentos e áudios que
o jornalista Elio Gaspari postou em seu site, tem-se a comprovação de
que o então presidente dos EUA, John Kennedy, 46 dias antes de ser
assassinado no dia 22 de novembro de 1963, em Dallas (Texas) , discutiu
em reuniões gravadas na Casa Branca se haveria ou não necessidade de
intervenção militar deles para dar o golpe no Brasil.
Kennedy assassinado, seu sucessor, o presidente Lyndon Johnson,
acionou a Operação Brother Sam dia 31 de março de 64 , com dezenas de
embarcações de guerra e centenas de homens no nosso litoral. Nem foi
preciso intervir, voltaram da costa mesmo. O mundo muito rapidamente
soube disso. Se não foi muito noticiado aqui durante a ditadura foi por
causa da censura à imprensa e da autocensura que a própria se impôs
muitas vezes sobre o assunto.
Golpe terminou sendo “made in Brazil”
O fato é que os documentos obtidos nos últimos 30 anos pelo Gaspari –
que serviram de base para a edição e a reedição de seus quatro livros
sobre os governos militares no Brasil – estão agora disponíveis no site “Arquivos da Ditadura”.
A Editora Intrínseca, responsável pelo projeto, informa que o acervo
reúne bilhetes, despachos, discursos, manuscritos, diários de conversas
travadas pela cúpula e telegramas do governo americano, somando mais de
15 mil itens sobre a ditadura.
Mas é um arquivo muito mais completo do que a simples participação
dos EUA no golpe. Ele contém registros desde os anos anteriores à
implantação da ditadura em 1964 e vêm até os últimos dias do regime.
Entre eles, no acervo, há 10 mil provenientes do arquivo do general
Golbery do Couto e Silva, como suas apreciações e análises conjunturais
redigidas em três momentos distintos, de 1960 a 1968.
Um dos destaques do site é este áudio da reunião do presidente
Kennedy, na qual ele debate a situação do Brasil e do Vietnã na Casa
Branca. Ele discute com os assessores e com o embaixador americano no
Brasil, Lincoln Gordon, se os EUA deveriam “intervir militarmente”
aqui. Montaram, então, a Operação “Brother Sam”, que Lyndon Johnson pôs
em prática com o envio à costa brasileira no dia 31 de março de 1964, de
um porta-aviões, um porta-helicópteros, um posto de comando
aerotransportado, quatro petroleiros e seis destróieres com 110
toneladas de munição para depor Jango.
Mas, em menos de 48 horas, o golpe se consumou, não houve a
intervenção militar direta americana e os EUA disfarçaram dando apenas
apoio diplomático e o reconhecimento ao governo militar. Como disse a
cientista política Maria Celina D’Araújo ao O Globo, a informação não
surpreende: “Os americanos estavam dispostos, mas a ajuda não foi
necessária. O golpe foi tramado e aplicado aqui. Made in Brazil mesmo”.
Não deixem de conferir, também, o excelente documentário O Dia que
durou 21 anos, de Flávio e Camillo Tavares, que traz os bastidores do
golpe. Confiram o trailer:
Blog do Zé Dirceu

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