terça-feira, 7 de janeiro de 2014

EUA mandou frota militar à nossa costa, mas golpe terminou “made in Brazil”





Quanto mais passa o tempo, mais se confirma a participação direta, ostensiva, dos Estados Unidos em aliança com civis e militares brasileiros no golpe de 1964 que depôs o presidente constitucional João Goulart – o Jango – e instalou no 1º de abril daquele ano a ditadura no país. Que, infelizmente, nada teve de 1º de abril, de mentira; pelo contrário, foi cruel, criminosa, nada de “ditabranda” como chegou a dizer um dia a Folha de S.Paulo.

Agora, neste ano em que se completam 50 anos do golpe, conforme documentos e áudios que o jornalista Elio Gaspari postou em seu site, tem-se a comprovação de que o então presidente dos EUA, John Kennedy, 46 dias antes de ser assassinado no dia 22 de novembro de 1963, em Dallas (Texas) , discutiu em reuniões gravadas na Casa Branca se haveria ou não necessidade de intervenção militar deles para dar o golpe no Brasil.

Kennedy assassinado, seu  sucessor, o presidente  Lyndon Johnson, acionou a Operação Brother Sam dia 31 de março de 64 , com dezenas de embarcações de guerra e centenas de homens no nosso litoral. Nem foi preciso intervir, voltaram da costa mesmo. O mundo muito rapidamente soube disso. Se não foi muito noticiado aqui durante a ditadura foi por causa da censura à imprensa e da autocensura que a própria se impôs muitas vezes sobre o assunto.

Golpe terminou sendo “made in Brazil”

O fato é que os documentos obtidos nos últimos 30 anos pelo Gaspari – que serviram de base para a edição e a reedição de seus quatro livros sobre os governos militares no Brasil – estão agora disponíveis no site “Arquivos da Ditadura”. A Editora Intrínseca, responsável pelo projeto, informa que o acervo reúne bilhetes, despachos, discursos, manuscritos, diários de conversas travadas pela cúpula e telegramas do governo americano, somando mais de 15 mil itens sobre a ditadura.

Mas é um arquivo muito mais completo do que a simples participação dos EUA no golpe. Ele contém registros desde os anos anteriores à implantação da ditadura em 1964 e vêm até os últimos dias do regime. Entre eles, no acervo, há 10 mil provenientes do arquivo do general Golbery do Couto e Silva, como suas apreciações e análises conjunturais redigidas em três momentos distintos, de 1960 a 1968.

Um dos destaques do site é este áudio da reunião do presidente Kennedy, na qual ele debate a situação do Brasil e do Vietnã na Casa Branca. Ele discute com os assessores e com o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon,  se os EUA deveriam “intervir militarmente” aqui. Montaram, então, a Operação “Brother Sam”, que Lyndon Johnson pôs em prática com o envio à costa brasileira no dia 31 de março de 1964, de um porta-aviões, um porta-helicópteros, um posto de comando aerotransportado, quatro petroleiros e seis destróieres com 110 toneladas de munição para depor Jango.

Mas, em menos de 48 horas, o golpe se consumou, não houve a intervenção militar direta americana e os EUA disfarçaram dando apenas apoio diplomático e o reconhecimento ao governo militar. Como disse a cientista política Maria Celina D’Araújo ao O Globo, a informação não surpreende: “Os americanos estavam dispostos, mas a ajuda não foi necessária. O golpe foi tramado e aplicado aqui. Made in Brazil mesmo”.

Não deixem de conferir, também, o excelente documentário O Dia que durou 21 anos, de Flávio e Camillo Tavares, que traz os bastidores do golpe. Confiram o trailer:






Blog do Zé Dirceu

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