5 de janeiro de 2014 | 12:41 Autor: Miguel do Rosário
Sou uma pessoa radicalmente contra linchamentos públicos, seja na
mídia seja nas redes sociais. Mas esse desembargador merece as críticas
que vem recebendo na rede, até porque simboliza o que há de mais odioso
na sociedade brasileira: a desigualdade econômica.
E se a desigualdade econômica é o pior vício da sociedade brasileira,
ela às vezes gera uma doença ainda pior, e que talvez seja a pior de
toda a humanidade: o desejo de humilhar um ser humano mais simples que
você.
O que foi exatamente o que esse desembargador quis fazer: humilhar o pobre garçom que não botou gelo em seu copo.
Segue abaixo, um artigo do Paulo Nogueira sobre o assunto.
O desembargador, o garçom, o bom samaritano e o Brasil
Por Paulo Nogueira
A miséria e a grandeza humana se encontraram numa padaria de Natal neste final de ano.
A miséria foi representada pelo desembargador Dilermando Motta, e a grandeza pelo cidadão Alexandre Azevedo.
Um garçom foi o palco involuntário do combate entre a grandeza e a miséria.
Segundo os relatos, o desembargador pegou o garçom pelos ombros aos
gritos e o mandou tratá-lo como “excelência”. Ameaçou “quebrar a cara”
do garçom.
O motivo: o garçom não colocara gelo em seu copo.
Alexandre reagiu, e isto está registrado num vídeo que está sendo intensamente visto e compartilhado na internet.
Numa nota sobre o caso, Alexandre citou Darcy Ribeiro. “Ele dizia que
só há duas opções na vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me
resignar nunca.”
O desembargador chamou a polícia na padaria, depois de dizer que
Alexandre seria preso imediatamente. Quatro viaturas logo acudiram. Mas,
feitas perguntas aos presentes, ninguém foi preso. Evangélico
fervoroso, Motta, como você pode observar no vídeo, berrava palavras
como “endemoniado” e “endiabrado” ao bom samaritano que tomara a defesa
do garçom.
“Bando de cagão”, disse o desembargador aos policiais segundo
Alexandre. Um novo vídeo capta o momento em que Motta ofende os
policiais. Nele, a voz de uma mulher corrobora a versão de Alexandre.
“Todo mundo é testemunha”, diz ela à polìcia.
Numa entrevista posterior ao caso, Alexandre disse que Motta estava
armado, e manifestou preocupação com eventuais de um “homem poderoso”.
Num mundo menos imperfeito, uma prisão teria sido feita: a do desembargador, por abuso de autoridade.
Num mundo menos imperfeito, o caso teria conquistado repercussão
nacional na mídia. Mas a mídia brasileira não dá voz aos desvalidos, aos
humilhados e ofendidos. Eles são nossos irmãos invisíveis.
Na Inglaterra, em 2012, ocorreu um episódio de certa forma
assemelhado. Um alto funcionário da equipe do premiê Cameron foi acusado
de chamar de “plebeus” os policiais que não o deixaram sair de
bicicleta pelo portão principal de Downing Street, a sede do governo. Os
policiais pediram que ele usasse a saída dos pedestres.
Foi uma comoção nacional. A mídia chamou o caso de “Plebgate”. Em
pouco tempo, o acusado perdera o emprego depois de já haver perdido a
reputação.
Na Escandinávia vigora um código — a Janteloven, leis de Jante,
cidade fictícia que moldou a cultura igualitária da região — segundo o
qual ninguém é melhor — nem pior — que ninguém por força de cargo e
dinheiro. O infame comentário de Boris Casoy sobre os lixeiros o teria
transformado imediatamente num pária social se tivesse sido proferido na
Escandinávia.
No Brasil, a reação ao comportamento do desembargador se restringiu
essencialmente às redes sociais, o que mostra o divórcio entre a mídia e
a realidade dos brasileiros.
No começo deste ano, a única vítima do episódio era o garçom. Ele foi
afastado por estar com problemas psicológicos, segundo a padaria. Foi
colocado em “férias”.
O desembargador, numa nota, afirmou que está tomando as “providências
cabíveis”. Ora, o mínimo “cabível” era um pedido honesto de desculpas
ao garçom e às pessoas da padaria que tiveram que aturar sua arrogância
violenta.
Não poderia haver retrato melhor da justiça brasileira e nem da mídia, que só dá voz a quem já a tem em alta escala.
A internet faz seu papel: reage ao abuso e, como Alexandre, defende vigorosamente o garçom.
No momento em que escrevo, nem um único repórter fora convocado para
ouvir a história do garçom. Ninguém fora à sua casa, que podemos bem
imaginar como seja.
Nenhuma autoridade – federal, estadual, municipal – se pronunciara em favor dele.
E o desembargador viverá em 2014 como sempre viveu, sabedor dos poderes que o cargo lhe dá.
Assista ao vídeo:
Tijolaço
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