O presídio de Pedrinhas, no Maranhão, com as 14 decapitações de presos por outros presos, foi que conquistou status de escândalo, mas foi o Presídio Central em Porto Alegre que no dia 30 passado motivou notificação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos ao Brasil, com prazo de 15 dias para sanar as monstruosidades ali impostas aos presos.
Resumo mínimo: o presídio comporta 1.985 presos, amontoa 4.590; esgoto a
céu aberto atravessa o que seria o pátio; o comando real há muito tempo
é exercido por facções criminosas. De Norte a Sul, portanto, o mesmo
sistema. Não só nos presídios. Também o Judiciário e o Ministério
Público se reproduzem no Brasil todo.
Os governos estaduais e o federal são os acusados de sempre. Por
merecimento. Mas por exagero acusatório também, como é igualmente de
praxe. A nenhum juiz, desembargador ou integrante de tribunal superior
falta conhecimento das condições criminosas vigentes em presídios
brasileiros. A nenhum promotor e nenhum procurador do Ministério Público
Federal falta o mesmo conhecimento. O padrão geral em suas atividades
funcionais, no entanto, é este: nenhuma demonstração prática de
interesse pela existência dessas masmorras medievais, configuráveis como
crimes tanto na legislação brasileira de direitos humanos, como em
tratados internacionais de que o Brasil é signatário.
E o conhecimento indiferente é apenas o começo. Aqueles monturos humanos
se formam nos presídios por ação de promotores e julgadores, em
princípio convictos da razão dada a seus atos pelo autos dos processos. E
pronto, acabou-se. Vamos ao próximo.
Mas daí resulta que as condenações no Brasil são mentirosas. A lei e as
sentenças referem-se a anos de reclusão. O cumprimento das penas inclui,
porém, outra condenação, implícita na primeira e não declarada, logo,
ilegal: a pena cronológica de muitos milhares será cumprida nas
condições mais degradantes, física e moralmente. A pior condenação, o
maior sofrimento, não estão na sentença.
Dizia há pouco Gilmar Mendes: ..."essas cadeias em que os presos fazem
necessidades uns sobre os outros", palavras de ministro do Supremo
Tribunal Federal. Gilmar Mendes a quem se deve, aliás, o programa de
inspeção a presídios e verificação de penas concluídas, tarefa que levou
representantes do Conselho Nacional de Justiça a desvendar o presídio
maranhense. Em contrapartida às palavras e medidas de Gilmar Mendes,
também há pouco dizia um ex-desembargador em seu comentário radiofônico,
sobre determinados presos: ..."concluída a reabilitação"... –haja
hipocrisia.
Nos presídios há muitos monstros humanos, para os quais é difícil
dirigir alguma piedade. Mas outros tantos são apenas humanos,
humanamente criminosos. Igualá-los na perversidade da condenação dupla e
degradante é uma injustiça terrível em nome da justiça. E faz ser o
caso de perguntar-se se a degradação, nessas circunstâncias, atinge só
os que estão dentro dos presídios.
Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha,
é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa com
perspicácia e ousadia as questões políticas e econômicas. Escreve na
versão impressa do caderno "Poder" aos domingos, terças e
quintas-feiras.
Folha de S. Paulo

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