Renato Dias, autor de livros sobre a esquerda
brasileira e repórter especial de política do Diário da Manhã, produziu
um alentado perfil sobre o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, que
terá seu destino decidido na próxima quarta-feira, pelo ministro Celso
de Mello; Dias ouviu a cineasta Tatá Amaral, que produz o documentário
"O vilão da República", sobre os últimos meses do réu mais notório do
País, e o ator José de Abreu, que também fará um filme sobre o
julgamento da Ação Penal 470; saiba mais sobre esse personagem que
desperta admiração e ódio
Renato Dias, da editoria de política do Diário da Manhã
(texto cedido para o 247)
Dois filmes, uma história. É a vida de José Dirceu de
Oliveira e Silva, líder estudantil das revoltas de 1968 no Brasil,
exilado em Cuba, dirigente do Molipo, arquiteto da chegada do PT ao
palácio do Planalto e réu na Ação Penal 470.
Diretora do celebrado ‘Hoje’, longa que aborda os
‘fantasmas’ dos anos de chumbo da ditadura civil e militar no Brasil
(1964-1985), a cineasta Tata Amaral, com a Tangerina Filmes, sua
produtora, quer lançar no mercado “O Vilão da República”.
Por meio da Lei Rouanet, ela poderá captar, em renúncia
fiscal, R$ 1,5 milhão para produzir o documentário. A realizadora já
possui 20 horas de gravação. Não há data definida para ainda para a sua
chegada aos cinemas do País.
Tata Amaral revela a O Estado de S. Paulo
que o ponto de partida é a pergunta: “Como José Dirceu se transformou
no vilão da República?”. A produção abordará a sua passagem pela Casa
Civil, sob a gestão de Lula, até o julgamento final da ação.
O Vilão da República seria uma espécie de documentário do
gênero “filme de observação”, diz. As câmeras irão monitorar o
comportamento do personagem polêmico, que é amado e odiado, na mesma
intensidade, em um momento importante de sua história.
Não se trata apenas de um filme de entrevistas,
jornalístico, avisa ela. A cineasta Tata Amaral, que também fez o longa
de ficção “Antônia”, viajará para os Estados Unidos, Cuba, Venezuela.
O
ex-presidente Lula poderá participar do filme
Nas telas
Já o filme “AP-470 – O golpe jurídico” terá a participação
do ator de telenovelas José de Abreu. Ele, que compõe o elenco da nova
novela da Globo Joia Rara, anunciou a celebração do contrato pelo
Twitter. Registro: na última terça-feira.
O seu personagem será um dos ministros do Supremo tribunal
Federal. José de Abreu trabalhará ainda na produção. Amigo do
ex-ministro-chefe da Casa Civil e ex-presidente nacional do PT José
Dirceu, o ator começará a pesquisa já no ano de 2014.
“Não sei qual ministro vou fazer, não temos roteiro ainda.
Eu só publiquei para ser a primeira notícia. Não registramos ainda na
Ancine (Agência Nacional do Cinema) nem na Biblioteca Nacional. Não tem
roteiro, argumento, nada”, disse ao Zero Hora.
“Sou muito amigo do Zé Dirceu, vou ter acesso a coisas
importantes. Tem muita coisa pública. O Supremo Tribunal Federal (STF),
quando publicar o acórdão, trará mais informações públicas. Os advogados
do Dirceu também podem ajudar”, explica.
José de Abreu afirma que a ideia do filme é o julgamento.
“É pegar o Palácio do Planalto, a Casa Civil, e depois pular já para o
julgamento”, dispara. Para apimentar, ele promete histórias de
bastidores. “Tem de ter bastidor”, fuzila.
Não se trata de documentário, garante. É um filme de
ficção, frisa. Os antecedentes históricos farão parte do roteiro. “A
mudança do PT que perdia a eleição para o PT que ganha a eleição”,
atira. Ele informa já ter feito pesquisas.
“Alguém falou que houve pagamento mensal? Nem o Joaquim
Barbosa [presidente do Supremo Tribunal Federal] falou em pagamento
mensal. São essas coisas que a gente têm de discutir, mas tudo isso
dramaticamente. Tem de ser uma coisa ficcionada”.
O ator não revela a angulação do filme. Ainda não acabou o
julgamento, analisa. É cedo pra falar, completa. “Se você ler o Paulo
Moreira Leite, o Jânio de Freitas, vai ver que existem vozes que
levantaram-se contra esse julgamento”, destaca.
A ideia central é que a base do filme seja o julgamento,
com flashbacks. Veja a questão do televisionamento ao vivo de um
julgamento penal, diz.“Vamos tentar chegar o mais perto possível da
verdade. A verdade para um não é a verdade para outro”.
Ao jornal Zero Hora, José de Abreu afirma
não temer ficar estigmatizado com um petista raivoso. “Se você entrar
na página da novela Joia Rara, tem uma matéria sobre mim dizendo:
‘Esquerdista José de Abreu vai fazer papel que é o seu oposto’. Eles
assumiram que eu sou de esquerda sem o menor problema”, diz.
Saiba mais sobre o ex-ministro da Casa Civil
José Dirceu, um personagem controverso
Depois de orquestrar o aggiornamento do PT de 1995 a 2002,
que moderou seu discurso, mudou a sua práxis e atraiu novos aliados
para Luiz Inácio Lula da Silva e cia. Ltda chegarem ao poder, José
Dirceu de Oliveira e Silva, “o capitão do time”, assume, em janeiro de
2003, o cargo de ministro da Casa Civil.
A sua passagem pelo coração do Palácio do Planalto durou
exatos 30 meses. Ele deixou o cargo na crise política de 2005. Um
apartamento de três quartos na Vila Madalena, em São Paulo, e uma casa
em Vinhedo (SP). Esse era o seu patrimônio quando despediu-se da
“camarada de armas” Dilma Vana Rousseff.
Nada incompatível com os rendimentos de um advogado
formado na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), que havia exercido
os mandatos de deputado estadual (1986), três vezes de deputado federal
(1990, 1998 e 2002) e de presidente nacional do PT, de 1995 a 2002, uma
função tradicionalmente remunerada no partido.
Condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por peculato
e formação de quadrilha, o seu patrimônio particular no ano em que foi
cassado pela Câmara dos Deputados é uma demonstração de que ele não
teria desviado recursos públicos para bolsos privados, muito menos se
enriquecido de forma ilícita.
História
Não custa lembrar: preso, em 1968, no Congresso da UNE de
Ibiúna (SP), José Dirceu passou exatos 10 meses e 24 dias na cadeia.
Acabou libertado após a captura, não sequestro como aponta Otávio Cabral
[Mais uma disputa pela memória], do embaixador dos EUA no Brasil, o
liberal Charles Burke Elbrick.
Com o ato complementar 64, foi banido do Brasil. Antes,
exibiu as algemas após conclamação de Flávio Tavares em fotografia
histórica. Ele foi o quinto a pisar em solo mexicano. Em 30 de setembro
de 1969, com mais 12 comunistas de linhagens diversas, embarca para
Cuba, onde foi recepcionado por Fidel.
Em Havana, adota o codinome Daniel. Ele funda o Molipo,
uma dissidência da ALN. Com a Anistia, retorna ao Brasil. É um dos 111
signatários da ata de fundação do Partido dos Trabalhadores. Em 1990,
muda-se para a Capital da República e constitui-se em um dos líderes do
movimento de impeachment de Fernando Collor.
PMDB
Ao assumir a Casa Civil, em 2003, defende acordo político
com cargos para o PMDB. Lula veta. José Dirceu faz pacto com o “príncipe
da privataria” Fernando Henrique Cardoso, como define Palmério Dória, e
não investiga casos de corrupção em sua gestão nem adota medidas para
rever a farra de privatizações(1997-2002)
Em 2004, estoura o escândalo Waldomiro Diniz, cujo pedido
de propina é de 2002. Uma gravação que teria sido feita pelo araponga
Dadá e repassada a Policarpo Júnior, amigo de Carlinhos Cachoeira,vai
parar na Veja e surta Roberto Jefferson. O cardeal do PTB diz que o PT
pagava mesada aos deputados da base aliada.
Mas nos mapeamentos das votações no Congresso não há
relação entre a liberação dos recursos e os votos nas mensagens. Paulo
Moreira Leite frisa que tratam-se de acertos de campanhas eleitorais.
Aristides Junqueira admite Caixa 2. José Dirceu cai da Casa Civil em 16
de junho de 2005 e perde o mandato por 293 a 192.
Novo capítulo
Com a quebra dos seus sigilos bancários, telefônicos e
fiscais nada é encontrado. Ao contrário do caso Demóstenes Torres.
Ministro do STF, Ricardo Lewandowisk admite que a imprensa acuou o STF. O
mesmo STF que extraditou Olga Benario e abençoou o golpe de 1964 fez,
então, o “maior julgamento de sua história”. Nada mais falso. Novo
capítulo ocorrerá quarta-feira. (Renato Dias)
Brasil 247
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