dom, 05/01/2014 - 09:05
Nos últimos anos, a indústria da mídia foi invadida por uma legião de
anticomunistas que pareciam emergir das fraldas dos tempos, e de uma
multidão de neoanticomunistas, atendendo à demanda aberta pelos grupos
de mídia.
Explorei esse tema no artigo "Para melhor entender os amuos de FHC com Joaquim Barbosa" (clique aqui).
É um anticomunismo de vestimenta nova. Vem na forma de combate ao
chavismo, bolivarismo, castrismo e outras manifestações políticas
absolutamente irrelevantes, no atual nível de desenvolvimento
brasileiro.
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Nos anos 20 a 40, o anticomunismo penetrou fortemente no imaginário
nacional. Na Igreja, devido às perseguições religiosas em alguns países
comunistas. Nas Forças Armadas, devido à chamada Intentona Comunista,
com os oficiais mortos de madrugada, além da visão internacionalista dos
comunistas se sobrepondo ao conceito de poder nacional. Nos
empresários, devido ao combate à propriedade privada. No meio político,
devido ao seu caráter antidemocrático.
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Com o tempo, todos esses fatores esfumaçaram e o comunismo virou um
retrato na parede. A Guerra Fria acabou em 1963, no encontro de Kennedy
com Kruschev; o comunismo terminou em fins dos anos 80, com a queda do
muro de Berlim e, depois, com a Glasnot soviética.
No Brasil, desde os anos 80 os comunistas perderam espaço nos
movimentos populares para o PT, liderado por um metalúrgico, Lula, que
se dava bem com multinacionais e jamais abandonou seus princípios
socialdemocratas.
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Há um conjunto de críticas que podem e devem ser feitas em relação ao
governo: aparelhamento do Estado, problemas de gestão, excesso de
interferência na economia, pouca vontade em promover a desburocratização
e a racionalização fiscal.
Soma-se o sentimento difuso de desconforto com a corrupção, os conchavos políticos, os campeões nacionais.
Mas há dois problemas com o discurso.
O primeiro, é que a maioria dos vícios apontados são comuns a todos
os partidos políticos, típicos do modelo político torto do país.
O segundo, é a dispersão das críticas que não permite a unificação do discurso.
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O melhor caminho seria apresentar um projeto de país redondo,
inovador, assimilável pelo eleitor. Porém, nos últimos trinta anos, só
prosperaram três discursos de corte: o da redemocratização e da
anti-inflação nos anos 80; o da liberalização econômica do período
Collor-FHC; e o das políticas contra a miséria, do período Lula.
À falta de discurso alternativo, a ampla politização midiática escolheu o caminho simplificador do anticomunismo.
Ele permite unificar todas as insatisfações: as insatisfações da
Igreja tradicional e dos evangélicos contra os avanços morais; dos
empresários, contra a burocracia, a carga fiscal e o excesso de
intervenção do Estado; da população em geral, contra a corrupção e os
acordos políticos espúrios. Dos militares, contra os que pretendem
escarafunchar os crimes da ditadura.
Debitando tudo na conta do comunismo-chavismo-bolivarismo-castrismo
ou seja o ismo que for, tudo fica facilitado- facilita-se a vida,
reduz-se toda a crítica a chavões pouco sofisticados, de fácil
assimilação para a média da opinião pública midiática.
E não há necessidade de trabalhar o discurso para cada público. As
análises antichavistas de Arnaldo Jabor são do mesmo nível daqueles dos
humoristas de shows "stand ups" ou de roqueiros atuando no Twitter.
O único inconveniente é que essa forma de oposição não vence eleições
e afasta do partido qualquer eleitor minimamente informado.
Blog do Luis Nassif

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