Certas pessoas, raríssimas, parecem acima da condição humana. Nelson Mandela foi um desses seres inexplicáveis.
Passar na prisão 27 anos, com a consciência de que só lhe acontecia
assim por defender uma das mais grandiosas causas universais, e emergir
desse massacre sem ressentimento, com propósitos e atos de quem fosse
servido por 27 anos com o melhor da vida -isso excede o humano. O animal
homem não é assim.
O ressentimento é um dos menos lembrados sentimentos. E dos mais
determinantes de vidas pessoais e do andar da história. Mandela não foi
Mandela por suas ideias de democracia racial. Mandela só pôde ser
Mandela porque não se permitiu o ressentimento, um feito, no seu caso,
tão gigantesco quanto suas demais vitórias.
VELINHAS
Passou na semana passada sem celebração alguma, apesar de tão merecida, o
aniversário de dez anos de permanência do mensalão do PSDB no Supremo
Tribunal Federal. Distribuído ao hoje ex-ministro Ayres Britto, é o
processo que ficou com o STF quando o tribunal decidiu desmembrar a ação
penal, e entregou outra parte à Justiça comum de Minas. Desmembramento
negado ao mensalão do PT, em prejuízo de vários dos réus, ao retê-los em
uma só instância de julgamento.
Com a aposentadoria de Ayres Britto, o processo aguardou por sete meses a
indicação do substituto por Dilma Rousseff. O novo ministro Luís
Roberto Barroso recebeu-o e pretende vê-lo em julgamento no ano que vem.
Será um feito, embora sem maior efeito. Já dois réus do mensalão do
PSDB estão liberados pela idade.
O tempo tem ainda outros modos de colaborar com a Justiça à brasileira.
Há três anos e três meses, o então deputado José Tatico, do PTB goiano,
proporcionou um momento histórico ao Supremo: foi tido como o primeiro
congressista ali condenado. Por apropriação de dinheiro destinado à
Previdência Social. Como até agora esperasse o exame de um recurso pelo
Supremo, também na semana passada foi beneficiado com a prescrição de
sua pena, que a declarou sem sequer chegar ao exame do recurso.
Mas os parlamentares continuam por lá. Se bem que o relator Luiz Fux
pediu o arquivamento da ação contra o deputado Arthur Lima, alagoano do
PP. Perdeu, porém. O congressista foi acusado -é verdade que depois
também desacusado- de haver derrubado a ex-mulher, aplicado-lhe alguns
pontapés e até lhe puxado os cabelos. Entre a entrada do processo no STF
em 2011 e o parecer da Procuradoria Geral da República, representada
pelo mesmo Roberto Gurgel do processo do mensalão, foram necessários 11
meses. E depois passados mais um ano e nove meses, na semana passada o
Supremo decidiu pela ação penal contra o deputado. A agressão já tem
sete anos de espera.
VIDA ÍNDIA
Tiuré voltou ao noticiário. Foi anistiado e indenizado em R$ 60 mil
pelas torturas sofridas quando incentivou a reação de outros índios, no
sul do Pará, à quase escravidão imposta por donos de castanhais e
madeireiros em reservas indígenas. Tiuré era funcionário da Funai, que
trocou pela resistência coletiva, revoltado com o que a fundação estava
fazendo aos índios. Tudo isso nos anos 70 e 80 do século passado. Depois
das prisões, Tiuré asilou-se no Canadá.
Tiuré voltou ao Brasil. E diz que os documentos e fatos que testemunhou
na Funai comprovam a intenção dos militares de exterminar os
remanescentes indígenas. Muitos desses documentos foram em parte
conhecidos. Indicavam com clareza o propósito, no mínimo, de extinguir
as culturas indígenas e as reservas.
A Comissão Nacional da Verdade precisa ouvir Tiuré. E precisa buscar os
documentos da Funai daqueles anos. Sobretudo os do período em que esteve
entregue ao coronel Ivan Zanoni Hausen, figura controvertida na própria
FAB desde que se dispôs a metralhar o acampamento de companheiros seus
que se rebelaram contra o governo Juscelino. As opiniões de Zanoni, em
relação aos índios, lembravam os primórdios da campanha nazista contra
os judeus.
Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha,
é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa com
perspicácia e ousadia as questões políticas e econômicas. Escreve na
versão impressa do caderno "Poder" aos domingos, terças e
quintas-feiras.
Folha de S.Paulo

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